O superávit comercial chinês próximo de US$ 1 trilhão não é apenas um número impressionante. Ele é o retrato de um modelo econômico que segue produzindo e exportando em escala global, mesmo em um mundo marcado por alto endividamento de governos e empresas, juros elevados e crescimento fraco. Para muitos países, esse desequilíbrio é visto como ameaça. Para o Brasil, ele representa uma oportunidade estratégica, ainda mal aproveitada.
US$ 1 trilhão não é acaso, é poder econômico organizado
A China consolidou sua posição como a grande fábrica do mundo, dominando cadeias industriais, tecnologia e bens de consumo. Mas esse modelo tem um limite físico e social claro: o país não consegue produzir alimentos em volume suficiente para sustentar sua população urbana crescente e sua expansão industrial. E é exatamente aí que o Brasil entra.
A China domina fábricas, o Brasil sustenta o sistema
Hoje, a relação comercial entre Brasil e China é estrutural, não circunstancial. O Brasil fornece soja, milho, carnes, celulose, minério de ferro e energia indireta via alimentos e biomassa — insumos que a China não consegue substituir internamente sem elevar custos ou gerar tensões sociais. Quanto mais a China exporta, mais ela precisa importar comida, ração animal e matérias-primas básicas. O superávit chinês, portanto, só existe porque países como o Brasil sustentam a base material desse sistema.
Sem o Brasil, o superávit chinês não fecha a conta
Em um mundo altamente endividado, essa lógica ganha ainda mais peso. Governos têm pouco espaço fiscal, empresas enfrentam crédito caro e o consumo nos países ricos perde força. Nesse ambiente, a produção de alimentos deixa de ser apenas um negócio e passa a ser um ativo estratégico. Diferente de bens duráveis, comida não pode ser adiada. E poucos países têm as condições naturais, climáticas e produtivas para ampliar oferta como o Brasil.
Em um mundo quebrado, comida manda mais que dinheiro
A grande dúvida que surge é se esse superávit chinês é sustentável. Economistas discutem seus desequilíbrios internos, como consumo doméstico fraco, excesso de capacidade industrial e problemas no setor imobiliário. Mas, do ponto de vista brasileiro, essa discussão é quase secundária. Se o superávit continuar alto, a China seguirá exportando e mantendo forte demanda por alimentos. Se o superávit cair, o governo chinês tende a estimular o consumo interno, o que também significa mais demanda por proteína animal e grãos. Em ambos os cenários, o agro brasileiro continua essencial.
Com superávit alto ou baixo, a China continuará dependente do campo brasileiro
O risco real, portanto, não está na China. Está no próprio Brasil. A dependência excessiva de commodities pouco processadas, a falta de agregação de valor, a logística deficiente, o crédito caro e a instabilidade regulatória limitam a capacidade do país de capturar mais renda dessa relação privilegiada. O Brasil vende volume, mas ainda perde margem.
O erro brasileiro é vender muito e ganhar pouco
O superávit chinês de US$ 1 trilhão deveria ser lido como um alerta positivo: o mundo industrializado depende cada vez mais de quem consegue produzir comida, energia e matérias-primas em escala. Nesse cenário global, o Brasil ocupa uma posição rara e difícil de substituir. A diferença entre transformar isso em prosperidade duradoura ou permanecer refém dos ciclos de preços passa por uma escolha clara: continuar apenas como fornecedor bruto ou avançar na agregação de valor, na indústria de alimentos e na estratégia de longo prazo.
O Brasil tem a vantagem estratégica, falta estratégia para usá-la
A China tem um plano. O mundo reage. O Brasil, dono de uma das maiores vantagens estratégicas do século XXI, ainda precisa decidir se quer apenas assistir ou jogar o jogo.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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