A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou nesta terça-feira (23) que vai destinar até R$ 106 milhões para a compra emergencial de leite em pó. O investimento vai ter execução imediata, por meio da modalidade Compra Institucional, no âmbito do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Ao todo, vão ser adquiridos mais de 2,5 mil toneladas do produto, com foco nos estados da região Sul do país, a principal produtora de leite do Brasil. Segundo a estatal, a medida tem o objetivo de mitigar o cenário de crise enfrentado pelos produtores, causada pelo excesso de produção no campo.
“Essa ajuda é fruto de uma intensa mobilização que fizemos em Brasília para o setor leiteiro seguir incentivado a produzir”, afirmou o presidente da Conab, Edegar Pretto. A declaração ocorreu após reunião em Porto Alegre (RS) com representantes do setor leiteiro. Também participaram o diretor de Política Agrícola e Informações, Silvio Porto, e o superintendente regional do estado, Glauto Lisboa.
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Muita produção, pouco retorno
A produção brasileira de leite em 2024 foi de 35,6 milhões de litros, de acordo com dados divulgados pelo governo federal. Para este ano, Pretto aponta que o país “teve uma produção de leite acima de outros”, o que reforça a perspectiva de produção excedente. Segundo ele, a intenção da compra é “enxugar” parte desse mercado, com a expectativa de que o preço pago aos produtores retorne a patamares mais elevados.
Para efeitos de comparação, o preço médio do leite pago ao produtor calculado pelo Cepea fechou outubro em R$ 2,2996/litro, na Média Brasil. Em estados de grande relevância, como o Rio Grande do Sul, a cotação média é de R$ 2,2170/litro. Em Santa Catarina, a situação é semelhante: o litro do leite está precificado em R$ 2,2040.
Setor reconhece ação, mas pede medidas mais amplas
Na avaliação do presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva, a medida anunciada pela Conab é positiva. “Os produtores de leite estão numa situação muito difícil e qualquer apoio é muito bem-vindo”, disse. Nesse sentido, a expectativa do dirigente é que a ação também ajude a impulsionar o setor leiteiro nacional.
O presidente da Cooperativa Regional dos Assentados da Fronteira Oeste (Coperforte) de Santana do Livramento, Elio Müller, também enxerga a medida como um alívio para as entidades do setor leiteiro. Ele enfatizou a situação problemática do mercado, com preços muito baixos aos produtores. “Saímos daqui satisfeitos com essa iniciativa, pois entendemos que a partir dela iremos voltar a escoar a nossa produção para a indústria”, afirmou.
Por outro lado, a Associação de Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando) alerta para a necessidade de medidas mais amplas. O presidente da entidade, Marcos Tang, disse que o anúncio da estatal, de forma isolada, é insuficiente. “Precisamos que essa ação seja somada a outras. Que os estados produtores de leite se somem a essa ação no sentido de comprarem o produto também”, ponderou ele, por meio de nota.
Além disso, Tang destacou a questão da tarifa antidumping para derivados lácteos dos países do Mercosul como exemplo. Apesar da crítica, ele reconheceu que a retirada de leite em pó do mercado pode fazer os preços melhorarem. “O que nós estamos reivindicando é que o produtor possa pelo menos cobrir o prejuízo”, disse.
Como as compras vão funcionar?
Segundo a Conab, os agricultores familiares de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Alagoas, Sergipe e Goiás, vão poder inscrever propostas para fornecer leite em pó para a Companhia. Isso deve ocorrer, entretanto, por meio de associações, cooperativas e demais organizações formalmente constituídas.
Em termos custeamento da operação, a Conab vai pagar cerca de R$ 41,89 por quilo do produto, um preço único calculado a partir do preço médio de referência das superintendências regionais do PR, SC e RS. O valor de referência, fixado através da Política de Garantia de preços Mínimos (PGPM), está em R$ 1,88 por litro, enquanto o preço médio pago pelo mercado está em torno de R$ 2,22 por litro.
Ainda de acordo com a Conab, a compra vai ser realizada de forma articulada, entre a matriz e as superintendências regionais.
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