A decisão do Banco Central de manter a taxa Selic em 15% já está amplamente precificada pelo mercado. A justificativa também é conhecida: a inflação ainda encontra dificuldades de ancoragem, especialmente nos preços de serviços, que seguem pressionando os índices e impedem um movimento mais ousado de flexibilização monetária.
Do ponto de vista técnico, a decisão faz sentido. Do ponto de vista econômico e produtivo, o custo começa a ficar alto demais.
Com juros nesse patamar, o Brasil passa a figurar entre os países com os maiores juros reais do mundo. Isso atrai capital financeiro estrangeiro, aumenta o fluxo de dólares para aplicações de curto prazo e fortalece a moeda brasileira. À primeira vista, parece um sinal de confiança. Na prática, cria um problema sério para quem produz e exporta. O real valorizado significa exportação menos competitiva.
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O agro sente isso imediatamente. Soja, café, algodão e açúcar têm seus preços formados no mercado internacional. Quando o dólar cai e os custos internos seguem elevados, as margens desaparecem em silêncio. A produção continua forte, a tecnologia avança, a produtividade cresce, mas o resultado financeiro não acompanha.
Esse é o ponto que muitos indicadores não mostram. Juros altos não afetam apenas o crédito. Eles mexem com o câmbio, com o planejamento, com a tomada de risco e com a disposição de investir. Projetos são adiados, compras são revistas, decisões são postergadas. O país entra num modo defensivo, de contenção, não de crescimento.
E não é só o setor produtivo que paga essa conta. O próprio governo se torna refém desse cenário. A dívida pública brasileira já exige mais de um trilhão de reais por ano apenas para rolagem e pagamento de juros. É um volume de recursos que consome parte significativa da arrecadação e reduz drasticamente o espaço para investimento em infraestrutura, logística, armazenagem, pesquisa e políticas estruturantes para o campo.
Forma-se, assim, um círculo difícil de romper: juros altos encarecem a dívida, a dívida pressiona o fiscal, o fiscal frágil exige juros altos por mais tempo.
Enquanto isso, o agro, que sustenta o superávit comercial e gera divisas para o país, opera cada vez mais espremido entre custos elevados, crédito caro e preços pressionados pelo câmbio.
É importante deixar claro: controlar a inflação é essencial. Mas não existe política monetária sem efeitos colaterais.
A Selic em 15% pode até ser a decisão do momento, mas não é neutra. Ela favorece o capital financeiro de curto prazo, mas penaliza quem produz, investe e exporta. E o agro é o mais prejudicado.
O Brasil precisa decidir se quer ser apenas um destino atraente para aplicações financeiras ou um país capaz de crescer de forma consistente, competitiva e sustentável.
Porque a pergunta que se impõe não é técnica, é econômica e estratégica: até quando o país consegue continuar com o pé no freio ?

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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