Historicamente, o risco no agronegócio não se manifesta de forma abrupta. Ele avança em silêncio, como uma erosão gradual que só se revela quando transborda na planilha de custos. A recente escalada nos preços dos fertilizantes é o sintoma mais visível de uma fragilidade estrutural que o setor já não pode tratar como evento pontual.
Um levantamento da Stonex, divulgado pelo Canal Rural na última terça-feira (3), mostra que os fertilizantes iniciaram o ano com altas de até 20%. O movimento reflete a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, um dos principais gargalos da logística global. Mais uma vez, a rentabilidade do produtor brasileiro é afetada por conflitos a milhares de quilômetros da porteira.
O episódio escancara uma vulnerabilidade estratégica: o Brasil opera como potência agrícola global, mas importa mais de 90% dos nutrientes que sustentam sua produtividade.
Eficiência produtiva sobre uma base financeira volátil
O sucesso do agro brasileiro, sustentado por tecnologia, genética e uso intensivo de insumos, permitiu ganhos expressivos de produtividade por décadas. Nesse período, o aumento da produção compensou os custos e manteve as margens em expansão.
Esse equilíbrio, porém, se rompeu. A produtividade segue avançando, mas com retornos marginais decrescentes e exigindo aportes financeiros cada vez maiores. Com a Selic acima de 15%, a decisão de produzir deixou de ser apenas agronômica e passou a ser, sobretudo, financeira, e de alto risco.
A autossuficiência nacional em fertilizantes não é uma solução viável no curto prazo. Projetos de mineração e plantas industriais demandam capital intensivo e estabilidade regulatória que o país ainda não oferece. A resposta, portanto, não é ideológica, mas de gestão de risco.
Agricultura regenerativa: o “hedge” biológico além do romantismo
É sob essa ótica econômica que a agricultura regenerativa deve ser analisada. Longe de soluções mágicas, ela se apresenta como uma estratégia concreta de mitigação de volatilidade.
O foco não está em eliminar fertilizantes, mas em aumentar a eficiência biológica do solo para reduzir a exposição a choques externos. Manejo inteligente, rotação de culturas e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) transformam o solo em um ativo de resiliência.
Na prática, o ganho está na redução do risco financeiro. Menor dependência de importados significa menor exposição cambial, menor necessidade de capital de giro e menor dependência de um crédito bancário hoje proibitivo. Em um cenário de dinheiro caro, qualquer estratégia que reduza alavancagem agrega valor imediato ao negócio.
O agro brasileiro sempre avançou pela adaptação pragmática. A transição para práticas mais resilientes não representa ruptura, mas evolução diante de margens apertadas e instabilidade geopolítica.
Com insumos caros e juros elevados, o modelo baseado apenas em “mais insumo para mais volume” atingiu seu limite financeiro. O futuro do setor será medido não só pela produtividade por hectare, mas pela capacidade de ser menos vulnerável e financeiramente mais sustentável.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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