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O Brasil volta a flertar com o recorde histórico de endividamento das famílias. Hoje, o país já ultrapassa 73 milhões de brasileiros negativados, algo em torno de 44% da população adulta, com contas em atraso. Não é um número frio. É um retrato social. É a classe média comprimida, o trabalhador formal atrasando cartão, a conta de luz entrando na fila da renegociação.

A taxa básica de juros, uma das mais altas do mundo, transforma qualquer dificuldade em bola de neve. O crédito que ontem parecia solução vira armadilha. Dívidas contraídas num cenário mais otimista encontram hoje renda menor, custo maior e margens apertadas. O resultado é previsível: inadimplência crescente.

Mas o problema não está apenas nas famílias.

As empresas também sentem o peso desse ambiente. O varejo já opera com taxa de inadimplência elevada. No agronegócio, o quadro é ainda mais delicado: preços internacionais pressionados, custos elevados, financiamento caro. A conta simplesmente não fecha. Quando a rentabilidade cai e o juro sobe, o atraso no pagamento deixa de ser exceção e passa a ser consequência.

E há uma imagem que sintetiza esse momento: o brasileiro vai para a avenida, trabalha, produz, protesta, vota, mas caminha com os pés pesados pelas dívidas que carrega. Ao lado dele, o próprio governo desfila com uma dívida crescente nas costas. É como se o país inteiro marchasse tentando celebrar crescimento enquanto arrasta correntes invisíveis feitas de juros e compromissos que não param de subir.

Nenhuma economia prospera quando o endividamento das famílias cresce ao mesmo tempo em que o governo amplia sua própria dívida. O Brasil já opera com dívida pública elevada em relação ao PIB, pressionando as expectativas, exigindo juros altos e alimentando um ciclo perverso. O Estado gasta demais, a confiança diminui, o prêmio de risco sobe, o crédito encarece, a renda encolhe. E a roda gira ao contrário.

Não se trata apenas de gestão financeira individual. Trata-se de modelo econômico. Nenhum país sustenta crescimento duradouro quando suas despesas crescem mais rápido que sua capacidade de gerar riqueza. Arrecadar mais não resolve se o gasto continua descontrolado. A confiança nasce do equilíbrio, e o equilíbrio começa pelo exemplo.

Hoje, o Brasil caminha perigosamente próximo de um ponto em que tanto a dívida das famílias quanto a dívida pública tensionam o sistema ao limite. E quando a confiança se rompe, não há negociação que resolva.

O que falta não é diagnóstico. Falta responsabilidade.

Falta um projeto que reduza despesas improdutivas, estimule investimento, gere renda e permita queda estrutural dos juros. Falta coragem para enfrentar privilégios e reorganizar prioridades. Sem isso, continuaremos administrando crises que nós mesmos criamos.

O mais grave é que essa trajetória não é obra do acaso. É resultado de escolhas. E diante de um país sufocado por dívidas, juros altos e renda estagnada, Congresso, Executivo e até o Judiciário deveriam refletir seriamente sobre o papel que desempenham.

Porque quando a nação inteira desfila com correntes nos pés, não é apenas o cidadão que está preso. É o país inteiro que está andando em círculos.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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