O ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irã não é apenas mais um episódio militar no Oriente Médio. É um choque que atinge um mundo já tensionado por dívidas elevadas, crescimento fraco e juros ainda altos.
O regime iraniano é autoritário e sempre representou uma ameaça direta a Israel. A preocupação com a possibilidade de um Irã nuclear é legítima. O problema não é reconhecer o risco, mas a forma como se reage a ele.
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A escalada liderada por Benjamin Netanyahu, com apoio dos Estados Unidos, abriu um cenário difícil de controlar. Aeroportos pararam, voos foram cancelados e o petróleo reagiu imediatamente. Na Europa, o óleo de aquecimento já sobe cerca de 13%. E paira sobre tudo a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa parcela relevante do petróleo mundial.
Se Ormuz fechar, mesmo que temporariamente, o efeito será direto: energia mais cara encarece o transporte, o transporte pressiona os alimentos e a inflação volta ao centro do palco. Num planeta altamente endividado, inflação persistente significa juros mais altos por mais tempo — e juros elevados, combinados com dívida recorde, são combustível para a instabilidade financeira.
Vivemos um momento em que qualquer erro estratégico pode virar um problema sistêmico.
A diplomacia falhou, e o ambiente político agravou o quadro. Donald Trump vinha elevando o tom, ameaçando enviar porta-aviões e ampliar a presença naval na região. Ao construir uma narrativa de pressão máxima, reduziu o próprio espaço de recuo. Com aprovação doméstica baixa, em torno de 27% nesse episódio, o presidente passa a ser refém da própria retórica. Quando as decisões militares se misturam ao cálculo político interno, o risco aumenta.
Mas há um ponto que nos diz respeito diretamente: o Brasil.
Enquanto o mundo discute o risco de escalada, o petróleo e a inflação, o debate interno brasileiro parece girar em torno da próxima eleição. O Executivo, o Congresso e o Judiciário vivem sob tensão permanente, mais preocupados em responder a acusações mútuas do que em construir um plano preventivo diante de um cenário internacional que pode se deteriorar rapidamente.
Até agora, não se ouviu falar de um plano de contingência claro. O que o Brasil fará se o petróleo disparar? Como protegemos o escoamento da safra e o custo dos insumos se o diesel disparar?. Qual será a estratégia fiscal se a inflação voltar a pressionar? Como reagiremos se o dólar oscilar de forma brusca?
O país já enfrenta uma situação delicada: endividamento elevado, juros altos, inflação resistente e um ambiente eleitoral antecipado. Num cenário de choque externo, nossa margem de manobra é limitada.
Não se trata de alarmismo. Trata-se de responsabilidade.
Em momentos como este, o mínimo que se espera dos poderes constituídos é visão estratégica e coordenação. O Brasil não pode agir apenas depois que o problema estiver instalado; precisa antecipar cenários.
Porque, num mundo interligado, energia, inflação, dívida e estabilidade financeira caminham juntas. E quando a política ignora riscos globais, a economia cobra.
E cobra caro.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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