Foto: Agência Brasil

A divulgação do PIB de 2025 reforça uma constatação antiga da economia brasileira. O país até consegue crescer em determinados momentos, mas quase nunca mantém esse ritmo por muito tempo.

Sempre que a atividade econômica acelera um pouco mais, o roteiro se repete: a inflação começa a subir, os juros aumentam e o crescimento perde força. Não é coincidência. É um limite estrutural da própria economia.

Esse limite está ligado à capacidade produtiva do país, à quantidade de máquinas, infraestrutura, tecnologia e produtividade disponíveis para sustentar a expansão da atividade econômica. Quando a economia tenta crescer além dessa capacidade, surgem pressões inflacionárias e a política monetária reage com juros mais altos.

O Brasil cresce até onde sua capacidade de investir permite. Depois disso, aparecem inflação e juros altos.

No centro desse problema está um indicador fundamental: a taxa de investimento da economia, medida pela Formação Bruta de Capital Fixo.

No Brasil, ela permanece há anos próxima de 16% a 18% do PIB. Para uma economia emergente que ainda precisa expandir infraestrutura, modernizar a indústria e aumentar produtividade, esse nível é baixo. Países que conseguiram acelerar seu desenvolvimento mantiveram taxas próximas de 25% do PIB, patamar capaz de ampliar a capacidade produtiva e sustentar ciclos mais longos de crescimento.

A diferença parece pequena, mas seus efeitos são profundos. Com investimento perto de 17%, o país mal consegue repor o desgaste natural de estradas, máquinas e equipamentos. Com taxas próximas de 25%, a economia passa a construir novas bases para crescer: amplia fábricas, moderniza portos, melhora logística e aumenta produtividade.

O investimento, porém, depende de poupança, e o Brasil poupa pouco. Parte desse problema está no setor público. Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa emitir dívida para financiar o déficit. Ao fazer isso, absorve boa parte da poupança disponível na economia e mantém os juros elevados.

Nesse ambiente surge um incentivo perverso: para muitos investidores torna-se mais atraente financiar a dívida pública, segura e bem remunerada, do que assumir o risco de projetos produtivos de longo prazo. O capital que poderia financiar novas fábricas, infraestrutura ou inovação acaba financiando o próprio Estado.

Os dados recentes do PIB mostram também outro ponto importante. Boa parte da expansão da economia brasileira continua sendo puxada pelo consumo. O consumo é importante e movimenta a atividade econômica, mas não cria capacidade produtiva. Sem investimento suficiente, o crescimento encontra rapidamente um limite.

O consumo pode acelerar a economia por um tempo.
Mas sem investimento, o crescimento sempre acaba.

Nesse cenário, há um fator que tem ajudado a evitar um desempenho ainda pior da economia brasileira: o agronegócio. Embora sua participação direta no PIB seja menor que a do setor de serviços, o campo tem sido, nos últimos anos, um dos poucos motores consistentes de crescimento. Safras recordes, ganhos de produtividade e forte presença no comércio exterior ajudam a sustentar a atividade econômica e as exportações. Sem essa contribuição, o desempenho do PIB brasileiro poderia ser ainda mais fraco, e, em alguns momentos, até negativo.

Se o Brasil quiser crescer de forma sustentada acima de 3% ou 4% ao ano, terá que enfrentar esse desafio estrutural. Isso passa por aumentar a poupança pública, melhorar a qualidade do gasto e criar um ambiente mais favorável ao investimento produtivo. Também exige segurança jurídica e previsibilidade, condições essenciais para atrair capital de longo prazo para setores como infraestrutura, energia e logística.

Sem poupança, sem investimento.
Sem investimento, não há crescimento sustentável.

Esse desafio, porém, não é apenas econômico, é também institucional. Executivo, Legislativo e Judiciário têm responsabilidade direta na construção de um ambiente favorável ao investimento. O Executivo precisa pensar menos em projetos de poder e mais em projetos de país. O Legislativo deve ajudar a estruturar uma agenda de reformas que dê horizonte de longo prazo à economia. E o Judiciário precisa garantir segurança jurídica e respeito aos contratos, condição básica para que o capital produtivo tenha confiança em investir no Brasil.

O consumo é o destino natural da economia. Mas o motor do crescimento é o investimento.

Enquanto o Brasil continuar investindo pouco e poupando pouco, continuará esbarrando no mesmo limite. O PIB de 2025 apenas reforça essa realidade.

O país não cresce pouco por falta de potencial.
Cresce pouco porque investe pouco.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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