O Brasil não quer apenas ampliar as exportações de bioinsumos, quer redesenhar o mercado global de proteção de cultivos. A avaliação é do diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira das Indústrias de Bioinsumos (Abinbio), Mauro Heringer.
Segundo ele, o país construiu um ecossistema único de inovação tropical que o deixou com vantagem competitiva no cenário internacional. Para Heringer, o diferencial brasileiro vai além do volume de vendas. “O Brasil desenvolve bioinsumos sob alta pressão de pragas, calor extremo e cultivo contínuo, em seis biomas distintos”, afirma. O executivo chama esse processo de “prova da resiliência tropical”.
Isso porque se uma bactéria ou fungo que funciona no Cerrado tende a ter bons resultados em qualquer outro ambiente agrícola do mundo. “O Brasil exporta resiliência, não apenas microrganismos”, resume.
Em sua avaliação, isso significa que as empresas nacionais não vendem apenas um produto. Elas exportam conhecimento para substituir ou complementar insumos sintéticos em sistemas de alta produtividade.
Barreiras regulatórias
Expandir mercados, porém, exige superar gargalos. Heringer diz que o principal deles é regulatório, sendo que cada região adota critérios distintos para registro de bioinsumos.
Na União Europeia, por exemplo, prevalece o princípio da precaução, com o foco dirigido para a segurança toxicológica e para a ausência de contaminantes. Já nos Estados Unidos, a análise é baseada em risco real, com ênfase que recai sobre eficácia agronômica comprovada.
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Já na América Latina, o desafio é político. A meta é avançar na harmonização regional e no reconhecimento mútuo de registros. Além das regras, há um obstáculo técnico: a chamada “logística viva”.
“Exportar químicos é simples. Exportar seres vivos exige cadeia de frio e precisão”, salienta. Afinal, manter shelf-life e viabilidade biológica durante o transporte internacional ainda encarece a operação.
Capital nacional e disputa com multinacionais
Dados da Abinbio mostram que mais de 80% das empresas de bioinsumos registradas no país têm capital brasileiro. Para Heringer, isso criou uma dinâmica de soberania biotecnológica.
“Nas multinacionais, os biológicos muitas vezes são vistos como ‘complementares’ ou produtos defensivos para proteger a participação de mercado das moléculas químicas. Já nas empresas nacionais, o bioinsumo é o core business. Isso significa que 100% do setor de pesquisa e desenvolvimento é voltado para a biologia”, detalha o diretor.
Na visão dele, não há o “conflito de interesses” interno que ocorre em gigantes químicas, onde uma inovação biológica pode canibalizar as vendas de um fungicida sintético de alta margem. “A inovação brasileira é mais rápida, disruptiva e focada puramente em performance biológica”, define.
Ele reconhece, porém, avanço das fusões e aquisições. Isso porque gigantes globais têm comprado líderes nacionais. “Mas há o risco de o Brasil virar apenas celeiro de startups biológicas.”
Ainda assim, o diretor vê um “fosso defensivo” claro, visto que a performance comprovada em sistemas tropicais não se compra, mas se constrói ao longo de décadas em campo comercial.
Exportação de bioinsumos

O Comitê Nacional de Exportação de Bioinsumos, iniciativa da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) que conta com a Abinbio como membro, iniciou trabalhos ao final de 2025 e tem o desafio de não se tornar apenas uma plataforma simbólica sem entrega prática.
Para evitar que isso aconteça, Heringer destaca que a governança do setor está sendo estruturada sobre mecanismos de execução técnica e diplomacia comercial. “A Lei nº 15.070/2024 [Marco Legal dos Bioinsumos] nos fornece a base legal, mas a tradução em resultados mensuráveis depende de três pilares de coordenação institucional e o comitê não atua apenas na promoção comercial, mas na convergência de normas”, contextualiza.
Segundo ele, o mecanismo concreto é a criação de grupos de trabalho conjuntos com órgãos como a EFSA (Europa) e a EPA (EUA), tendo em vistas a redução do tempo de registro no exterior através da aceitação de dados gerados no Brasil.
Assim, o comitê utiliza o rigor do novo marco legal para pleitear que os dossiês de eficácia biológica aprovados pelo Ministério da Agricultura (Mapa) possam ser aceitos como prova técnica em outros países, eliminando a necessidade de repetir testes de campo que duram anos.
O diretor da Abinbio reforça, também, que o comitê identifica gargalos biotecnológicos em países parceiros e poderá conectar diretamente as empresas brasileiras que possuem a solução específica, através de missões diplomáticas, feiras e eventos, e por meio das suas adidâncias agrícolas juntos às embaixadas brasileiras em países chaves.
De acordo com Heringer, outro aspecto para se evitar que o produto brasileiro possa ser barrado por questões subjetivas de sustentabilidade reside na implementação do fomento à certificação e rastreabilidade em um sistema de Selo de Conformidade dos Bioinsumos, onde auditorias garantem que o insumo exportado cumpre requisitos de bioeconomia e baixa emissão de carbono, integrando-os ao programa nacional de bioinsumos.
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