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A disparada do preço do petróleo não é um movimento isolado. Ela reflete uma crise geopolítica que o mercado global começa a precificar com mais intensidade. As tensões entre Irã, Estados Unidos e Israel transformaram a energia em instrumento estratégico de pressão — e, como quase sempre acontece, a conta acaba chegando à economia real.

Para o agronegócio brasileiro, que já atravessa um período de margens apertadas e aumento de recuperações judiciais, esse novo choque de custos surge como mais um obstáculo à sustentabilidade econômica do setor.

Guerras no oriente médio sempre terminam na mesma conta: a de quem produz alimentos

A pressão pode aumentar ainda mais quando se observa o mercado doméstico de combustíveis. Dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) indicam que a defasagem do diesel no Brasil em relação ao mercado internacional gira em torno de 58%, podendo chegar a 64% nas refinarias da Petrobras. Para alcançar a paridade internacional, o preço nas refinarias teria de subir mais de R$ 2 por litro.

Em outras palavras, parte do choque do petróleo ainda não chegou plenamente à economia brasileira. Ele está apenas represado,  e tende a aparecer, mais cedo ou mais tarde, no custo do transporte, da logística e da produção.

Defasagens de preços apenas adiam o problema; não eliminam o choque de custos.

A escalada das tensões internacionais também expõe um fenômeno preocupante: a perda de previsibilidade na condução da política global. Durante décadas, acordos diplomáticos e mecanismos multilaterais ajudaram a reduzir incertezas. Hoje, o cenário parece cada vez mais dominado por decisões de curto prazo, pressões políticas internas e movimentos estratégicos imprevisíveis.

Quando a liderança das grandes potências se torna errática, quem opera na economia real passa a trabalhar em terreno instável, sem referências claras para planejar investimentos ou projetar custos.

Quando a geopolítica vira improviso, a economia real passa a operar no escuro

No caso do agronegócio brasileiro, o impacto vai além da energia. A logística de exportação começa a sentir os efeitos da turbulência internacional. Cadeias como a da proteína animal — especialmente o setor avícola,  já enfrentam tensões em rotas comerciais e atrasos logísticos.

A retenção de contêineres refrigerados, atrasos em escalas de navios e a elevação dos fretes começam a surgir em diferentes cadeias produtivas. Em um setor altamente dependente de eficiência logística, qualquer ruptura rapidamente corrói competitividade.

Sem logística fluindo e com insumos mais caros, a competitividade do agro começa a se deteriorar.

Sem energia previsível e sem logística fluindo, a competitividade do agro começa a desaparecer

O problema ganha contornos ainda mais amplos quando se observa o ambiente financeiro global. Juros elevados e alto endividamento internacional formam um terreno delicado. Se o aumento de custos comprimir ainda mais o caixa do produtor, o impacto pode rapidamente migrar para o crédito rural.

Nesse cenário, a instabilidade geopolítica deixa de ser um tema distante da diplomacia e passa a influenciar diretamente o financiamento das próximas safras.

No mundo atual, decisões tomadas em centros de poder distantes repercutem diretamente no campo, no transporte e, no fim da cadeia, na mesa de bilhões de pessoas.

Hoje, a geopolítica já não fica apenas nos mapas. Ela aparece no preço do frete, no custo do insumo e, inevitavelmente, no valor dos alimentos.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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