A reinserção de produtores bloqueados na cadeia da carne bovina vem ganhando espaço como estratégia para promover inclusão produtiva e regularização ambiental. A proposta é transformar bloqueios comerciais em processos de requalificação, com foco em governança, transparência e adequação socioambiental das propriedades rurais.
Em entrevista ao Mercado & Cia”, Stefannie Leffler, coordenadora do Grupo de Trabalho (GT) Terra da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, explicou que o movimento representa uma evolução nas políticas de monitoramento da cadeia.
Segundo ela, os protocolos socioambientais implementados nos últimos 10 a 15 anos, impulsionados por demandas da sociedade civil, tinham como princípio a corresponsabilidade das empresas sobre a origem da matéria-prima. No entanto, o bloqueio de fornecedores nunca foi pensado como etapa final.
“Essas políticas sempre tiveram como intenção criar caminhos para que o produtor pudesse se regularizar. Nos primeiros anos, houve a criação de listas de bloqueio, mas hoje o mercado tem ampliado o debate sobre regularização e reinserção”, afirma.
Da exclusão à regularização
Os programas de reinserção surgem justamente para oferecer ferramentas que acelerem o retorno do pecuarista às cadeias formais de fornecimento. A estratégia envolve apoio técnico, articulação com secretarias de meio ambiente, empresas privadas e frigoríficos, além de maior transparência na comunicação com o produtor.
De acordo com Stefannie, muitos casos são resolvidos por vias administrativas, como atualização de documentos, regularização cadastral ou apresentação de justificativas técnicas que comprovem o cumprimento das exigências socioambientais.
“Nesses casos, o produtor consegue demonstrar conformidade e voltar a fornecer para grandes empresas sem necessidade de medidas mais complexas”, explica.
Recuperação ambiental como segunda via
Há, porém, situações em que a reinserção exige ações mais estruturais, especialmente quando há constatação de desmatamento ilegal ou degradação ambiental.
Nesses casos, o produtor pode aderir a programas de recuperação de áreas, assumindo compromissos como:
- Pagamento de multas ou compensações previstas na legislação;
- Cercamento da área degradada;
- Suspensão do uso produtivo da área;
- Implantação de técnicas de recomposição vegetal, como reflorestamento.
A área passa a ser monitorada ao longo do tempo para garantir a recuperação ambiental. Tecnologias de sensoriamento remoto e coleta de dados em campo têm sido utilizadas para acompanhar o cumprimento dos planos, reduzindo custos e aumentando a eficiência do processo.
Sustentabilidade como requisito de mercado
Para a coordenadora do GT Terra da MBPS, a reinserção representa uma mudança importante na lógica da cadeia da carne bovina brasileira: em vez da exclusão definitiva, o foco passa a ser a regularização com responsabilidade.
A iniciativa dialoga com as exigências crescentes de mercados internacionais e com a necessidade de fortalecer a imagem da pecuária brasileira, conciliando produtividade e conformidade ambiental.
“A reinserção é uma ferramenta para garantir que o produtor tenha acesso à informação, entenda o motivo do bloqueio e tenha condições reais de se regularizar”, destaca Stefannie.
O avanço dessas estratégias reforça a tendência de que sustentabilidade e rastreabilidade deixem de ser diferenciais e passem a ser requisitos permanentes para participação na cadeia global da carne.
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