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Não foi um ano fácil, nem linear. Tivemos sustos, ruídos políticos, clima desafiador e tensão no comércio internacional. Mas, ao final das contas, o que aparece nos números, nos portos e até no custo de vida do brasileiro é claro: o agro entregou resultado, e entregou com competência.

Comecemos pelo que deu certo. O Brasil bateu sucessivos recordes de exportação de proteínas animais e vegetais. Carne bovina, frango, suínos, soja, milho, o país consolidou sua posição como um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo. Em um cenário global cada vez mais inseguro, o Brasil mostrou que produz em escala, com eficiência, sanidade e confiabilidade. Isso não é discurso: é dado concreto.

Esse desempenho não veio por acaso. Veio de tecnologia no campo, investimento privado, gestão profissional, abertura de mercados e, sobretudo, da resiliência do produtor rural. Enquanto muitas economias patinavam, o agro brasileiro seguiu fazendo o básico bem feito: plantar, colher, criar, processar e exportar.

Mas 2025 também teve seu momento de maior tensão: o chamado tarifaço. Quando os Estados Unidos anunciaram tarifas adicionais, o susto foi grande. O risco era evidente: perder mercado, perder competitividade, sofrer retaliações em cadeia. E ali estava um personagem conhecido por sua imprevisibilidade, Donald Trump, elevando o tom e pressionando parceiros comerciais.

O que evitou um estrago maior foi a postura brasileira. Em vez de bravata, o país respondeu com diplomacia, argumentos, dados e estratégia. Não partiu para o confronto vazio nem para medidas que pudessem piorar o cenário. O resultado foi claro: as exportações resistiram, e mais do que isso, cresceram. O medo virou aprendizado.

E os números do fim do ano confirmaram isso. Portos operando em níveis recordes, corredores logísticos no limite, embarques em ritmo acelerado. Isso não é apenas estatística. É sinal de confiança internacional no agro brasileiro. Quem compra do Brasil confia que o produto chega, respeita regras sanitárias e mantém regularidade.

Mas há um ponto que costuma ficar fora do debate e que foi decisivo em 2025: o papel do agro no combate à inflação.

Enquanto o país convivia com juros elevados e preocupação constante com o custo de vida, foi a oferta abundante de alimentos que ajudou a segurar os preços. A desaceleração dos índices de inflação não veio apenas de política monetária ou ajuste fiscal. Veio, em parte importante, da comida colocada à mesa dos brasileiros. Grãos, carnes, leite, hortifrútis: quando a produção funciona e o abastecimento flui, o efeito aparece diretamente no bolso da população.

Nesse sentido, o agro cumpriu um duplo papel ao longo do ano. No exterior, garantiu divisas, superávit comercial e reputação internacional. Dentro de casa, ajudou a conter a inflação, preservar o poder de compra, manter renda no interior do país e sustentar milhões de empregos ao longo de toda a cadeia produtiva. Poucos setores conseguem atuar, ao mesmo tempo, como âncora externa e amortecedor interno da economia. O agro conseguiu.

É difícil encontrar outro setor da economia brasileira onde as coisas funcionem com tanta previsibilidade. E isso diz muito sobre quem está no campo.

Gosto sempre de lembrar dos gaúchos. Hoje, o Rio Grande do Sul sofre com extremos climáticos: ou falta chuva, ou sobra. Mas foi justamente da adversidade que surgiu uma das maiores epopeias do agro nacional. Décadas atrás, muitos produtores colocaram seus sonhos em caminhões e migraram para o Centro-Oeste. Foram desbravar terras, enfrentar isolamento, aprender com o solo e com o clima. O resultado está aí: o Centro-Oeste se tornou uma potência global de grãos, e o Brasil, um celeiro do mundo.

Isso não aconteceu por política pública perfeita nem por ambiente fácil. Aconteceu por resiliência, insistência e vontade de vencer. A mesma lógica que sustentou o agro em 2025.

No fim das contas, o ano deixa uma mensagem clara: o agro brasileiro não é forte porque tudo dá certo. Ele é forte porque aprende a funcionar mesmo quando muita coisa dá errado. E é exatamente isso que mantém o Brasil de pé, alimentando o mundo, segurando a inflação em casa e ajudando a construir o próprio futuro.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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