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A cota de exportação de carne bovina para a China começa a alterar a dinâmica do mercado brasileiro. Embora o volume destinado ao Brasil seja inferior ao total embarcado no ano passado, os impactos não devem ser imediatos sobre os preços internos, avalia Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado.

Segundo o especialista, o principal ponto de atenção está na velocidade dos embarques. “O grande problema da cota, neste momento, é o ritmo das exportações. Tanto os fornecedores brasileiros quanto os compradores chineses estão correndo para garantir uma fatia maior antes que o volume se esgote”, afirma.

Dados de comércio exterior indicam que, apenas em janeiro, mais de 119 mil toneladas de carne bovina brasileira foram embarcadas para a China, o que representa cerca de 11% da cota anual. Para Iglesias, o cenário exige cautela. “Se mantivermos esse ritmo, lá por agosto ou setembro o Brasil pode não ter mais saldo dentro da cota”, alerta.

Caso o limite seja atingido, a carne brasileira passaria a enfrentar uma tarifa adicional de 55%, o que reduziria a competitividade no principal destino das exportações. “Com essa alíquota, a exportação se torna praticamente inviável. Isso cria um ambiente de forte volatilidade, com picos de preços nos momentos de demanda e quedas acentuadas quando a cota acabar”, explica o analista.

Interferência do governo

Diante desse risco, o governo brasileiro discute um mecanismo para distribuir o volume autorizado ao longo do ano. A proposta busca evitar a concentração dos embarques nos primeiros meses e reduzir oscilações no mercado.

Na avaliação de Iglesias, a medida não implica, necessariamente, maior concentração entre grandes indústrias. “Uma das alternativas em debate é justamente reservar parte das cotas para pequenas e médias empresas, ampliando as condições de concorrência”, observa.

O analista ressalta, porém, que qualquer mudança exige segurança jurídica. “É fundamental que haja um embasamento legal muito sólido. Caso contrário, o tema pode ser judicializado, o que ampliaria ainda mais a insegurança para o setor”, pondera.

Outro fator considerado decisivo é o alinhamento com as autoridades chinesas. “Boa parte das medidas discutidas pelo Brasil depende de anuência da China. O desfecho passa, inevitavelmente, pela capacidade de negociação entre os dois países”, conclui Iglesias.

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