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Visita pode abrir mercado para proteínas e, ao mesmo tempo, testar a capacidade do Brasil de atrair inovação industrial.

O presidente Lula chega neste domingo (22) à Coreia do Sul num momento em que o comércio internacional está menos paciente e muito mais estratégico. Não é uma viagem protocolar. É uma agenda que pode redefinir o tamanho dessa relação.

Acompanho o comércio exterior há décadas e aprendi uma coisa simples: quando duas economias são estruturalmente complementares, há oportunidade real. E é exatamente esse o caso.

A Coreia é uma potência industrial e tecnológica. Lidera em inovação, domina cadeias sofisticadas e exporta tecnologia para o mundo inteiro. Mas tem território limitado e depende fortemente da importação de alimentos. Para eles, segurança alimentar não é discurso, é política de Estado. Num ambiente geopolítico cada vez mais tenso, garantir fornecedores confiáveis virou prioridade.

O Brasil está entre os poucos países capazes de oferecer volume, regularidade e proteína animal em escala. Já somos relevantes em grãos. O passo seguinte é avançar nas carnes, superar entraves sanitários e consolidar a imagem de parceiro estável. Em tempos de guerra e gargalos logísticos, a previsibilidade vale tanto quanto o preço.

Agora, essa relação só se sustenta se houver reciprocidade.

Não faz sentido o Brasil continuar preso ao modelo clássico de vender commodities e comprar tecnologia pronta. A Coreia domina setores nos quais o Brasil precisa avançar se quiser falar seriamente em reindustrialização: semicondutores, conectividade, baterias, hidrogênio, tecnologia embarcada. Isso não é luxo. É base de competitividade.

Se houver pragmatismo, o Brasil pode se apresentar como plataforma produtiva para a América do Sul, atraindo investimentos e integrando cadeias industriais. Se não houver, será apenas mais uma viagem com boas fotos e resultados limitados.

A equação: eles precisam de alimentos e minerais; nós precisamos de tecnologia e capital.

O erro histórico sempre foi o mesmo,exportar natureza e importar inteligência.

Parceria estratégica não é questão ideológica. É cálculo econômico.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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