A troca do salto pela botina: produtora retorna ao campo para empreender
Na Fazenda Capoeira Coffee, em Areado, no sul de Minas Gerais, quase tudo começou do zero. Quando a família comprou a propriedade, há cerca de 20 anos, não havia cafezal formado. Hoje, são 120 hectares plantados e produção voltada aos cafés especiais, com práticas regenerativas, certificações e investimentos a fim de aproximar quem produz de quem consome.
Essa fazenda nasceu com o sonho de empreender no café. Nós começamos esse sonho literalmente do zero, plantando cada pé, conta Marisa Helena Contreras, proprietária da fazenda.
Fazenda Capoeira Coffee - 3º Lugar no Fazenda Sustentável - Médias Propriedades
A relação da produtora com o grão, porém, começou antes da Capoeira. Nascida em uma região cafeeira, ela cresceu sob influência do pai, que também era produtor. Mas a vida profissional, inicialmente, tomou outro rumo. Formada em farmácia, passou 25 anos no Estado de São Paulo, onde empreendeu no varejo farmacêutico. Há 12 anos, decidiu deixar os negócios e se dedicar integralmente à propriedade rural.
Troquei o salto pela botina e vim para a roça contar a minha história no café, afirma Marisa.
Quando assumiu mais diretamente a atividade, a produção ainda era comercializada como commodity. Marisa viu nos cafés especiais uma oportunidade de reposicionar a propriedade e agregar valor ao grão. Uma das primeiras iniciativas foi buscar certificações e estabelecer novos protocolos de produção e gestão. Para a cafeicultora, qualidade e sustentabilidade passaram a caminhar juntas.
A construção de um café especial não termina e nem começa na colheita. Começa na vida do solo, na vida das plantas, no cuidado com o meio ambiente, destaca.
Antes de incorporar novas práticas, Marisa e Thiago separaram áreas para comparar os resultados do manejo regenerativo do convencional
Thiago de Jesus
Na prática, essa visão levou a família a adotar técnicas de agricultura regenerativa. Entre as linhas dos cafezais, é cultivado um mix de plantas de cobertura. Cascas e palhas retiradas durante o processamento do café retornam à lavoura, assim como o esterco adquirido de fazendas vizinhas e adubos organominerais. A presença de abelhas também é estimulada, para favorecer a polinização e contribuir para o equilíbrio ambiental da propriedade.
Parte dessas transformações ganhou força com a entrada de Thiago Contreras, filho de Marisa, na gestão. Responsável pela área operacional, ele afirma que as práticas sustentáveis precisam apresentar resultados também dentro da lavoura.
Produzir um café sustentável, de qualidade, agrega muito valor não só no marketing, mas também na lavoura. Você melhora a qualidade e a .microbiota do solo. A sustentabilidade traz esse valor externo, mas também interno, para o pedaço de terra que você tem, observa.
Cascas e palhas resultantes do processamento do café retornam para a lavoura
Thiago de Jesus
Uma das mudanças conduzidas por Thiago está no manejo das plantas espontâneas. Em algumas áreas, o controle baseado em aplicações químicas deu espaço ao cultivo de espécies capazes de cobrir o solo e competir com plantas indesejadas.
Eu não achava correto aplicar quatro produtos químicos no solo para controlar o mato. Hoje, eu planto outros matos bons para competir com ele e consigo roçar, descreve.
Antes de ampliar as práticas, a família criou uma espécie de campo de testes dentro da propriedade. Thiago separava áreas para comparar o manejo convencional com o regenerativo. No café, porém, as respostas não são imediatas.
Como é um processo moroso, o resultado demora. Mas a gente vai fazendo testes e a planta 'fala'.
globorural
Com o tempo, segundo ele, plantas mais vigorosas e melhores resultados nas análises de solo ajudaram a expandir o modelo. Atualmente, quase todas as áreas em que as condições de relevo permitem recebem práticas como cobertura vegetal, aporte de matéria orgânica e reaproveitamento dos resíduos do café.
O retorno também aparece fora da porteira. Marisa diz que a adoção de protocolos socioambientais ganhou peso na comercialização, principalmente entre compradores internacionais.
A sustentabilidade abre portas em mercados importantes, que estão dispostos a pagar pelo café premium, porém exigem muito. Não basta mais você falar que é sustentável. Você precisa comprovar, ressalta.
A conservação do solo ganhou importância adicional diante dos desafios climáticos. A Capoeira não utiliza irrigação, e Marisa vê a agricultura regenerativa como uma ferramenta para reduzir a vulnerabilidade às oscilações do clima.
A atuação da produtora envolve ainda o fortalecimento de outras mulheres. À frente do Encontro da Mulher do Café, realizado anualmente, ela busca criar conexões entre produtoras e outras profissionais da cadeia. Segundo Marisa, o movimento já alcançou mais de 5.000 mulheres.
Quando uma mulher conquista espaço e resultados, tende a abrir oportunidades para outras, frisa.
A continuidade do negócio na Capoeira Coffee passa ainda por quem estará à frente da propriedade no futuro. Thiago tem 30 anos e, há cinco, trabalha ao lado da mãe.
Abri mão da minha carreira de advogado e estou aqui na fazenda, imerso, apaixonado por café, conta.
Capoeira Coffee - Areado (MG)
Atualmente, as responsabilidades são divididas. Marisa concentra principalmente a gestão financeira, enquanto Thiago cuida da operação, da contratação dos trabalhadores e do planejamento das atividades da lavoura. A adaptação nem sempre foi simples.
No começo, como toda família, teve muita dificuldade. Mas, com o passar do tempo, a gente trabalha como corda e viola, como diz o povo aqui da minha terra, brinca.
Para ele, a sucessão precisa ser preparada enquanto a geração anterior ainda pode transmitir conhecimento e compartilhar os números e os processos do negócio com os mais jovens.
É tão importante você ter um negócio de sucesso quanto manter esse negócio de sucesso. Deixar para entregar ao herdeiro quando você já não tem capacidade de ensinar mais não é a melhor hora, considera.
Na visão de Marisa, ter o filho ao lado completa um ciclo iniciado muito antes da formação do primeiro cafezal. Quando ela decidiu deixar a carreira nas farmácias para voltar ao campo, ouviu do pai que poderia se arrepender. Ele não chegou a acompanhar o caminho que a filha construiria na propriedade. Hoje, ela conta que olha para o céu e diz: "Pai, deu tudo certo".