Agricultoras familiares têm menos acesso a tecnologia e assistência técnica que homens
Responsáveis pela gestão de 19,7% dos estabelecimentos da agricultura familiar do país, as mulheres chegam a ter até metade do acesso a tecnologias produtivas e assistência técnica quando comparadas a homens na mesma situação. É o que aponta um estudo realizado pela WRI Brasil com base nos dados do Censo Agropecuário de 2017, último levantamento feito pelo IBGE sobre o setor.
De acordo com o levantamento, entre os estabelecimentos dirigidos por mulheres, 11,2% recebem assistência técnica, ante 19,9% daqueles dirigidos por homens. A presença de tratores é de 4,2% entre os estabelecimentos dirigidos por mulheres e de 13,2% entre os dirigidos por homens.
Há diferenças também no uso de adubação, realizada em 33,9% do estabelecimentos dirigidos por mulheres e em 44% dos estabelecimentos dirigidos por homens, e na correção do solo, presente em 7,5 e 14% dos estabelecimentos, respectivamente.
O estudo aponta ainda que as mulheres estão mais presentes na agricultura familiar do Nordeste, onde estão à frente de 24% dos estabelecimentos. No Norte, esse percentual é de 20%, caindo a 15% no Sudeste e 12% no Sul. No Centro-Oeste, elas respondem pela gestão de 18% das propriedades, segundo o estudo.
De acordo com a publicação, os dados confirmam a hipótese de outros estudos já publicados indicando que mulheres agricultoras tendem a ocupar posições menos favorecidas em indicadores relacionados à posse da terra, capacidade produtiva e acesso a recursos econômicos.
Os dados também apontam diferenças relacionadas a raça. Entre os estabelecimentos dirigidos por indígenas, 70,8% têm até cinco hectares, proporção que chega a 51% entre aqueles dirigidos por pessoas pretas e 46,1% entre pessoas pardas. Entre os estabelecimentos dirigidos por pessoas brancas, são 28,6%.
Reconhecer a heterogeneidade da Agricultura Familiar é um passo importante para compreendermos as diferentes condições em que os agricultores produzem, onde estão as principais restrições e como elas se manifestam nos diferentes territórios, pontua, em nota, a autora principal do estudo, Barbara Frizo.
A avaliação dos pesquisadores é de que falar em agricultura familiar como se fosse um grupo homogêneo pode levar a diagnósticos incompletos. Nesse sentido, são propostos três perfis do setor divididos por região.
No Norte e Nordeste, foram identificados produtores com menores áreas e menor acesso à assistência técnica, crédito e mecanização. No Sul e Sudeste, com produtores em condições relativamente mais favoráveis de acesso à assistência técnica, crédito, mecanização e tecnologias. E no Centro-Oeste, onde há menor presença da agricultura familiar e produtores em nível intermediário de acesso a assistência técnica, tecnologia e crédito.
As diferenças observadas neste estudo são relevantes porque podem influenciar as condições de produção, as oportunidades de geração de renda e a autonomia econômica das agricultoras, contribuindo para a reprodução das estruturas arbitrárias no interior da própria agricultura familiar, afirmam os pesquisadores que assinam o estudo.