Agronegócio

Agro não está em crise, avalia dirigente do Banco do Brasil

Autor: Por Rafael Walendorff — Brasília Publicado em: Fonte: Globo Rural
Agro não está em crise, avalia dirigente do Banco do Brasil
Foto: Antônio Neto/Embrapa

O vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, não enxerga uma "crise" no setor agropecuário brasileiro. Apesar do aumento da inadimplência no BB e no mercado financeiro em geral, ele reforça que mais de 90% dos agricultores continuam com as contas em dia e que a produção segue "pujante".

Na leitura do executivo, há espaço para um rearranjo nas contas dos produtores, influenciado pela reação nos preços das commodities, a perspectiva de boa colheita nesta safra 2026/27 e as opções de renegociação das dívidas, com prazo de até dez anos para quem teve perdas por clima ou oscilações de mercado via Medida Provisória 1.376/2026.

O agro não está quebrado, não está em crise, está pujante
, disse em conversa com a imprensa nesta semana.
Temos que incentivar o setor a, nos bons momentos, gerar poupança para uma eventual situação de volatilidade de preços ou de renda, por diferentes motivos, para permitir que o próprio setor possa se estruturar
, completou.

Bittencourt apontou que há problemas de liquidez no campo, mas o setor continua "estruturado e capitalizado". Apesar do recuo nos preços das commodities desde a pandemia, com sua volta ao "normal", houve valorização das terras e do patrimônio dos produtores.

Vamos encontrar produtores que se apertaram do ponto de vista de preços, mas no conjunto, o setor rural continua produzindo. E isso é importante
, apontou.

Para ele, o cenário de endividamento e inadimplência atual é diferente daquele vivido no final da década de 1980 e meados de 1990.

Naquela época, o setor diminuiu a área produzida, diminuiu os investimentos e teve uma redução significativa de produção. Hoje, a área plantada continua estável ou até crescendo dependendo do produto, as expectativas de produção e produtividade continuam elevadas mostrando que tem investimento
, analisou.

Com a reação nos preços das commodities recentemente, que pode gerar margens um pouco mais gordas para os produtores na safra 2026/27, e a trajetória de queda nos juros, Bittencourt vê espaço para melhoria no cenário geral da capacidade de pagamento no campo. Essa expectativa de melhora na renda futura deveria ser um fator a mais a ser considerado por esse público, disse ele, para encontrar uma solução neste momento e continuar com acesso ao crédito.

O ideal seria que esses produtores inadimplentes, ou quem está com uma operação prorrogada com vencimento mais curto, viesse buscar a renegociação, porque estaria pagando as primeiras parcelas de juros só daqui seis meses, em uma nova safra, com novos preços
, avaliou.

Expectativa de recuo na inadimplência

O Banco do Brasil espera estabilizar a inadimplência da carteira de agronegócios no último trimestre deste ano e projeta o início de uma trajetória de recuo nesses índices a partir de 2027. Em julho, o percentual estava em 6,27%.

Nesta semana, o BB anunciou que chegou a R$ 16 bilhões em dívidas em análise para renegociação via MP 1.376/2026. Mesmo assim, o cenário ainda não melhorou. A expectativa gerada com a corrida eleitoral e a possibilidade de anúncio de alguma nova medida para solucionar o passivo no campo tem gerado aumento nos atrasos de pagamentos de parcelas de crédito rural e impactado na inadimplência.

A manutenção do cenário de inadimplência é pior para os produtores e para o mercado em geral, disse Bittencourt.

Quanto mais tempo o produtor ficar inadimplente, mais a situação de risco dele vai ficar agravada, mais difícil fica para ele acessar crédito em qualquer instituição financeira no futuro
, apontou.

Como o financiamento tem peso importante na dinâmica do setor, esse "contágio" da inadimplência é rápido e faz as portas se fecharem em todo mercado financiador.

Crédito é confiança, para ter confiança tem que ter essa relação dos dois lados. Então, se esse produtor buscar regularizar a sua situação, vai abrir espaço para ele não só no Banco do Brasil, mas no conjunto das instituições financeiras
, completou.

Vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt

Marcos Oliveira/Agência Senado

O recorde de inadimplência também pesa nas provisões de perdas que o BB é obrigado a fazer. No primeiro semestre, eram R$ 43,6 bilhões provisionados por conta dos riscos associados à carteira de crédito rural, de R$ 421,5 bilhões.

Bittencourt disse que a renegociação pela MP 1.376/2026 deve ajudar a reduzir a necessidade de provisão no crédito rural apenas no médio prazo. Isso porque a adesão de inadimplentes foi abaixo do esperado pelo banco.

Quando a operação está adimplente e é prorrogada, é uma coisa. Mas quando ela já está inadimplente, e a depender do tempo que está nessa situação, é preciso fazer uma provisão muito alta
, disse. Até por isso o BB estava aplicando exigências da norma do Banco Central (resolução 4.966/2021) de cobrança de entrada ou garantia em alienação fiduciária para contratar a renegociação.

Em alguns casos, essa reversão da provisão pode ocorrer já pelas garantias oferecidas ou no início dos pagamentos das parcelas.

No médio prazo, a MP vai ajudar bastante na questão do provisionamento. Se eu tenho uma operação que está prorrogada, mas está adimplente, já está no estágio razoável, ela não necessariamente precisa de uma provisão muito grande. À medida que o produtor volte a pagar os juros, daqui a seis meses, eu já começo a curar essa operação (...) Mas não é uma ação para todo mundo, de forma igual e imediata. Depende muito das condições
, completou.