Agronegócio

Antes desprezado, sorgo vira 'negócio da China' com exportações e custo menor

Autor: Por Nayara Figueiredo — São Paulo Publicado em: Fonte: Globo Rural
Antes desprezado, sorgo vira 'negócio da China' com exportações e custo menor
Foto: Arquivo pessoal

Um cereal com origem entre as terras da África e da Ásia, mais resistente à seca, ao calor intenso e capaz de se desenvolver em solos menos férteis: esse é o sorgo. Com essas características, ele se torna uma opção de cultivo cada vez mais estratégica para os agricultores, em tempos de mudanças climáticas. E não só isso. Da família do milho, o sorgo brasileiro é usado na produção de ração, é matéria-prima do etanol e, agora, virou "negócio da China".

As exportações ao mercado chinês foram autorizadas em 2024, mas começaram, efetivamente, em agosto deste ano e criaram mais uma demanda para o sorgo do Brasil. Das 790 mil toneladas enviadas ao mercado externo entre janeiro e setembro de 2026, a China foi destino de 755,6 mil.

Em Uberaba (MG), na região do Triângulo Mineiro, o produtor rural Pedro Ottoni está colhendo cerca de 1,9 mil hectares de sorgo neste ano. O cultivo foi todo feito durante a segunda safra, numa fazenda em que também se planta soja e milho. Segundo ele, é possível citar uma série de motivos que o levaram ao sorgo -- e a adaptação ao clima está no topo da lista.

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É uma cultura mais rústica e tolerante a estresse hídrico e térmico. Aqui no Triângulo (Mineiro) estamos sofrendo com muitas ondas de calor durante o outono e inverno, e o sorgo, por ser de origem tropical, é mais tolerante a essas condições e ainda entrega produtividade
, diz.

Entre lavouras irrigadas e de sequeiro, Ottoni espera fechar a colheita (da safra 2025/26) com produtividade média de 6 toneladas por hectare. O desempenho representa alta de 42,8% em relação à temporada passada, quando as áreas foram atingidas por períodos de secas mais severas que o normal e renderam 4,2 toneladas por hectare.

Lavoura de sorgo de Pedro Ottoni, em Uberaba (MG)

Arquivo pessoal

Ainda assim, as produtividades de Ottoni superam a média brasileira. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o sorgo da safra passada, de 2025/26, tem produtividade estimada em 3,39 toneladas por hectare no país.

Em seu primeiro levantamento sobre o novo ciclo, de 2026/27, a estatal projeta produtividade de 3,62 toneladas por hectare, 6,7% acima da temporada anterior -- mas ainda abaixo dos rendimentos de Ottoni.

A área plantada deve crescer cerca de 2% em 2026/27, para 2,21 milhões de hectares. O avanço deve ser pequeno, mas veio após o aumento de 32,9% ocorrido em 2025/26.

Com isso, a produção nacional deve alcançar 8,03 milhões de toneladas em 2026/27, alta de 9%. O sorgo é o quinto cereal mais produzido no mundo e o Brasil ocupa a segunda posição nesse ranking, atrás apenas dos Estados Unidos.

Ottoni, que também é diretor da Aliança Internacional do Milho, a Maizall, observa que apesar do sorgo ser mais resistente que o milho, ele também é um produto que merece atenção, investimento em adubação e manejo de plantas daninhas e insetos.

A cultura que existia de 'plantar sorgo por plantar e ver o que vai colher' não deve mais existir nesse novo momento do sorgo. Aqui nós investimos no manejo e, em áreas irrigadas, nós alcançamos produtividades até acima de 9 toneladas por hectare
, comenta o produtor.

Para o ano que vem, Ottoni pretende manter o tamanho da área de plantio, também na segunda safra, mas aumentar o investimento em tecnologia, como bioestimulantes, na tentativa de elevar a produtividade e o retorno financeiro.

Segundo o agricultor, cerca de 10% de sua produção atual foi para exportações. Um lote foi comercializado com a Cofco, com destino à China, e outro foi vendido para uma trading que encaminharia ao Irã. Tradicionalmente, o sorgo de Ottoni era fornecido para ração animal. A partir de agora, a meta é vender para quem pague mais, seja no mercado interno ou externo.

Com a vinda da China para buscar sorgo aqui no Brasil, isso abriu uma perspectiva muito boa para o sorgo, inclusive com preços. Em algumas regiões, o produto já chega bem próximo do preço do milho, é o caso do Estado de São Paulo
, comenta o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Paulo Bertolini.

Rentabilidade atrativa

O agricultor Bernhard Kiep cultiva 800 hectares de sorgo em áreas de sequeiro e outros 200 hectares irrigados em Itaberá (SP), durante a safra de verão. Ele conta que os valores de venda do sorgo estão entre R$ 50 e R$ 60 por saca de 60 quilos.

O indicador do milho calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostra que o cereal estava cotado em R$ 65,59 por saca na última terça-feira (13/10).

Bernhard Kiep, de Itaberá (SP): saca tem sido vendida entre R$ 50 e R$ 60

Arquivo pessoal

Mas a principal diferença é que, segundo Kiep, o custo de produção do sorgo gira em torno de 40%, ou até 50%, mais barato que o do milho.

O sorgo tem sido uma cultura em que estamos muito satisfeitos. Nas áreas irrigadas, a produtividade pode se aproximar de 10 toneladas por hectare
, avalia.

A demanda está muito boa. Os EUA são nossos concorrentes e estão cada vez mais menosprezando o sorgo, porque preferem plantar milho
, acrescenta o produtor.

No mercado de etanol, a Inpasa utiliza sorgo como matéria-prima e trabalha com contratos futuros para dar ao produtor rural a previsibilidade na receita, com o fechamento da venda antes da colheita.

A gente enxerga o sorgo com uma oportunidade muito importante para complementar a área de cultivo do produtor. Fazemos um contrato antecipado, com um preço estabelecido, para ele travar também os custos
, afirma Irineo Piaia Junior, gerente regional da Inpasa.

Na unidade de processamento de Balsas (MA), a capacidade de processamento para produção do biocombustível é de 2 milhões de toneladas por ano. Segundo o executivo, não há um volume específico de quanto será utilizado com sorgo e quanto de milho.

Apesar da entrada dos chineses em busca do sorgo brasileiro, o gerente acredita que o mercado é soberano e haverá oferta a preços competitivos tanto para uso interno quanto para as exportações.