Berganês: conheça a raça de ovinos desenvolvida no Sertão Nordestino
No Sertão Nordestino, região de altas temperaturas, grandes períodos de estiagem e onde a disponibilidade irregular de alimento faz parte da rotina do produtor rural, encontrar animais com grande potencial de conversão alimentar é um desafio. Foi nesse ambiente que surgiu o Berganês, uma raça de ovino desenvolvida no semiárido brasileiro e que, depois de décadas de seleção, ganhou reconhecimento oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em maio deste ano.
A homologação pelo Mapa não apenas valida anos de pesquisa, mas também fortalece programas de melhoramento genético, amplia a rastreabilidade dos rebanhos e agrega valor comercial aos animais registrados, avalia o João Bandeira de Moura Neto, pesquisador do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE) e pioneiro no movimento para reconhecimento da raça.
Desde 1988, os criadores nordestinos realizam cruzamentos entre ovinos da raça brasileira Santa Inês e da italiana Bergamácia, visando maior produtividade de leite, porte avantajado e rústico e caracterização racial. Em 2014, no entanto, os cruzamentos ganharam contornos científicos, quando o pesquisador teve aprovador um edital de pesquisa para o Berganês. A iniciativa resultou em dezenas de trabalhos acadêmicos, dissertações, teses e artigos científicos, em parcerias com outras instituições, o que permitiu caracterizar a raça e fornecer os subsídios técnicos necessários para seu reconhecimento oficial.
Desde 2025, 32 criadores associados à Associação Brasileira de Criadores de Ovinos Berganês (ABCOB) passaram a ser acompanhados mensalmente pela equipe técnica da associação. Em abril de 2026, um levantamento constatou a presença da raça em 12 Estados brasileiros. Foram contabilizados 2.648 animais, de 98 criadores. Pernambuco se destacou como principal produtor, com 1.393 animais, o equivalente a 52% do rebanho nacional.
Vantagens
No semiárido, um animal geneticamente adaptado pode representar uma vantagem importante para o craidor, explica Moura Neto. A primeira é financeira: enquanto os ovinos tradicionais são vendidos a R$ 1 mil por cabeça, os exemplares Berganês têm valor entre R$ 3 mil e R$ 5 mil.
A capacidade de enfrentar temperaturas elevadas, caminhar em busca de alimento, aproveitar forragens disponíveis e manter desempenho reprodutivo e produtivo mesmo diante de condições adversas faz muito diferença na conversão alimentar e valoriza o animal, pontua o pesquisador.
Para João Berlúcio, proprietário do Berganês Rancho Dudé, de Terra Nova (PE), a escolha por trabalhar com uma raça adaptada ao clima semiárido foi fundamental para garantir produtividade e reduzir riscos, tornando a atividade viável mesmo em períodos de seca prolongada. Ao longo de dez anos, o rancho investiu em uma seleção criteriosa dos animais, com foco em desempenho produtivo e padrão genético.
Ovino Berganês são mais valorizados do que os tradicionais
Berganês Rancho Dudé/Divulgação
Em 2020, o Rancho Dudé buscou o apoio do Sebraetec com o objetivo de melhorar geneticamente o plantel e ampliar a comercialização. Até então, o empreendimento atuava com a venda direta ao consumidor final de carne caprina, leite de cabra e derivados, atendendo restaurantes, supermercados e a merenda escolar da região do Vale do São Francisco.
Com a consultoria, o produtor recebeu orientações sobre seleção, cruzamento de animais Puro de Origem (PO) e manejo do plantel, fortalecendo o padrão genético da raça Berganês. Ao final do trabalho, foram produzidos 29 embriões viáveis, com 19 implantações e 18 prenhezes, alcançando um índice de sucesso de 65,51%, considerado altamente positivo e passível de replicação.
Os resultados confirmaram que o investimento em genética, aliado à orientação técnica, foi determinante para elevar o padrão dos animais e fortalecer a comercialização de matrizes e reprodutores de excelência. Atualmente, participamos de exposições agropecuárias e comercializa animais, inclusive por meio de leilões virtuais", diz Berlúcio.
A combinação entre genética adaptada, gestão e apoio técnico permitiu transformar desafios climáticos em oportunidades produtivas. Conseguimos agregar valor à produção, apesar da nossa região apresentar muitos desafios, finaliza.