Agronegócio

Brasil atinge oficialmente 100% da cota de carne bovina para a China

Autor: Por Rafael Walendorff — Brasília Publicado em: Fonte: Globo Rural
Brasil atinge oficialmente 100% da cota de carne bovina para a China
Foto: Canva/Creative Commons

A Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC, na sigla em inglês) informou nesta terça-feira (29/9) que a quantidade de carne bovina importada do Brasil sob as medidas de salvaguarda atingiu 100% da cota prevista para 2026, de 1,106 milhão de toneladas. A partir de agora, novas remessas que ingressarem no país asiático neste ano serão sobretaxadas em 55%.

Na prática, desde julho, os frigoríficos brasileiros pisaram no freio na produção e embarque de cortes para a China, diante do avanço do preenchimento da cota. Como há um prazo de até 60 dias entre a saída das cargas do Brasil e a chegada nos portos chineses, referente ao período de trânsito em mar, exportadores praticamente cessaram os embarques nos últimos meses para evitar sobretaxa sobre volumes que eventualmente excedessem a cota.

O anúncio de preenchimento de 90% da cota havia sido feito em 10 de agosto. No mercado pecuário nacional, havia um estranhamento em relação à demora para chegar aos 100%. O movimento ocorreu porque a China considera a data de desembaraço das cargas no país.

Nos cálculos da Safras & Mercado, o Brasil já havia ultrapassado a cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina in natura de 2026 em meados de agosto. Nos oito primeiros meses do ano, entraram na China 1,144 milhão de toneladas de carne brasileira, segundo os dados da GACC compilados pela consultoria, o equivalente a 103,5% da cota, com 38,75 mil toneladas além da cota.

Por conta desse movimento, a China caiu de primeiro para quinto lugar nos principais destinos da carne bovina brasileira em agosto. No mês passado, foram embarcadas para lá apenas 18,9 mil toneladas, queda de 88,2% na comparação com o mesmo mês de 2025.

No acumulado do ano, saíram do Brasil 899,2 mil toneladas de carne bovina com destino à China, negócios que renderam US$ 5,5 bilhões aos frigoríficos exportadores, alta de 10,2% no faturamento e queda de 6% no volume embarcado, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Em entrevista recente, o presidente da entidade, Roberto Perosa, disse que o atingimento da cota não significa necessariamente que todas as vendas vão parar. Segundo ele, pode haver operações residuais, a depender dos contratos e das condições comerciais. Nesses casos, sinalizou ele, o importador deverá assumir a diferença tarifária de 55%.

Mesmo assim, Perosa reconheceu o impacto que o esgotamento precoce da cota causou em 2026.

Tivemos um impacto gigantesco nas indústrias. Julho, agosto e setembro foram meses muito difíceis, principalmente por conta das margens e da impossibilidade de manter o fluxo normal de vendas para a China. Reduzimos em cerca de 90% os embarques para o mercado chinês
, afirmou ele na coletiva de imprensa, em 11 de setembro.

Segundo Perosa, sem a limitação da cota, o Brasil poderia exportar até 2 milhões de toneladas de carne bovina para a China neste ano, acima do recorde de 1,67 milhão de toneladas de 2025.

Temos produto e capacidade de processamento. O volume que não foi para a China precisou encontrar outros destinos
, disse, na ocasião.

Mecanismo de controle

Diante desse cenário, a indústria deverá retomar a articulação com o governo federal para que seja estabelecido um mecanismo de controle das cotas para a China. A ideia é que o Ministério da Agricultura faça a gestão dos volumes a serem embarcados.

Para a Abiec, a medida é essencial para evitar que a cota se esgote ainda mais cedo em 2027.

Se nada for feito e mantivermos a média mensal que historicamente exportamos para a China, a cota pode acabar já em março ou, no mais tardar, abril. Isso seria muito ruim para todo o setor, porque poderíamos passar de três meses de dificuldade neste ano para cerca de seis meses no próximo
, salientou na entrevista.