Cantora lírica e advogado cultivam cacau em agrofloresta em Ilhabela
Um projeto pioneiro de preservação da Mata Atlântica iniciado em 2011, com o plantio de mais de 6.000 árvores frutíferas em sistema agroflorestal, sendo 1.500 pés de cacau, resultou em mais uma grife para Ilhabela, ilha paulista famosa por beleza, suas praias de águas cristalinas, cachoeiras e casarões históricos.
A nova grife é o Cacau da Ilha, uma marca de chocolate artesanal tree-to-bar (da árvore à barra) produzida na Quinta Carvalhosa, propriedade rural de 3 hectares que fica em uma área de preservação permanente da ilha, na Montanha do Veloso, a 15 quilômetros do centro de Ilhabela.
A fabricação das barras de chocolate 100% orgânicas, que incluem frutas da fazenda como o cupuaçu, é feita pela arquiteta, cantora lírica e chocolatier Fabíola Mirella Emendabili de Carvalhosa, neta do pioneiro da fazenda. Ela passou sete anos na Europa se apresentando em vários palcos e cuidando da carreira artística. Lá conheceu o marido, Frederico Pauleta, um advogado português que se especializou na área de desenvolvimento socioeconômico. Juntos voltaram ao Brasil em 2024 para assumir a gestão da quinta que pertencia aos pais dela, mantendo a preservação da mata e agregando valor ao negócio.
Para se capacitar, eles foram para a Bahia fazer cursos de cultivo e manejo do fruto orgânico. Fabíola incluiu no seu currículo o curso de chocolatier em São Paulo para elaborar os produtos da marca, que incluem barras de até 100% de cacau, nibs, bombons, geleias, chá, licor e um drinque especial servido na casca do cacau.
Os produtos são vendidos em feiras e eventos e na lojinha da propriedade, que tem como carro-chefe o turismo rural, aproveitando a vantagem de ficar ao lado da Cachoeira do Veloso, uma queda d'água muito visitada por turistas.
O casal abriu neste ano uma lojinha de chocolates e café no centro de Ilhabela, mas fechou o negócio após quatro meses ao concluir que a dedicação ao comércio estava interferindo nos cuidados da filha Rita, de 2,5 anos, e no estilo de vida que eles tinham adotado desde a mudança para a fazenda.
A loja dava mais lucro, mas o sonho começou a virar um pesadelo. Agora ganhamos menos, mas temos menos gastos e somos mais felizes. Viemos para cá para trabalhar com agricultura familiar, para estar em harmonia com a natureza e queremos que nossos filhos participem de tudo com a gente, disse a produtora, que está grávida da segunda menina.
Frederico Pauleta: produção de cacau fica em torno de 600 a 700 quilos por ano
Cacau da Ilha/Divulgação
A mãe dela, que é dos povos originários de Ilhabela (assim como a avó e a bisavó), ajuda no negócio. A quinta foi comprada pelo avô paterno, que foi o primeiro médico de Ilhabela. O pai, um descendente de italianos, foi quem plantou as primeiras árvores de cacau, mas teve que se afastar da gestão por problemas cardíacos. O bisavô, o ítalo-brasileiro Galileo Ugo Emendabili, foi co-autor do projeto do Obelisco do Ibirapuera. Fabíola, 34 anos, nasceu em São Paulo, mas passava as férias na fazenda do avô, onde só era possível chegar a cavalo porque não havia estradas.
O cacau plantado na mata junto com pés de banana, mandioca, juçara, cupuaçu, laranja, limão, cupuaçu, cambuci e cajamanga não recebe nenhum agrotóxico ou adubo químico. A colheita é feita manualmente pela própria família, que, eventualmente, tem a ajuda de colaboradores em mutirões e de estrangeiros interessados em viver a experiência de manejar cacau orgânico no sistema de agrofloresta.
Esses visitantes internacionais, a maioria jovens, passam de uma semana a um mês na propriedade trabalhando e recebendo hospedagem e alimentação. Há pouco tempo, quem viveu a experiência foi um ciclista alemão de 72 anos, que já passou por 42 países.
Fabíola diz que a produção anual de cacau é pequena, fica em torno de 600 a 700 quilos. Uma pequena parte do nibs é vendida para um único cliente de São Paulo e o restante Fabíola transforma em chocolate.
A gente colhe cacau o ano todo, uma ou duas vezes por mês. Não investimos em fertilizantes porque nosso objetivo não é caçar maior produtividade e deixar a árvore exausta. Queremos produzir um alimento orgânico em harmonia com a mata e a terra preta da montanha, diz Fabíola.
Além dos 1.500 cacaueiros em produção, foram plantados mais 1.500 pés, que devem começar a produzir no próximo ano. Em 2027, eles planejam iniciar a venda dos produtos pelo e-commerce, vender frutas orgânicas para a alimentação escolar e incluir saraus dentro da mata no roteiro do turismo rural.
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