Carbono como ativo da agricultura
Hoje se fala de carbono o tempo todo. O tema está nas discussões sobre clima, energia, produção de alimentos e desenvolvimento. Entrou também na agenda de empresas, governos, produtores e investidores. Virou assunto de metas, regulações, mercados e, com alguma frequência, também de controvérsias.
Apesar dessa quase onipresença, o carbono continua sendo, para muita gente, algo pouco compreendido. Há certa ironia nisso, pois esse elemento é componente fundamental da natureza. Está no nosso corpo, nas plantas, nos animais, no solo, nos oceanos e na atmosfera. É a base estrutural da matéria orgânica e da vida como a conhecemos.
Na agricultura, essa presença é ainda mais evidente. Pela fotossíntese, as plantas retiram dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e, com energia solar, transformam esse carbono em biomassa. Formam raízes, folhas, caules, grãos, frutos, fibras, açúcares e óleos. Simplificando, a agricultura é uma grande máquina biológica de captura, transformação e armazenamento de carbono.
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Parte desse carbono retorna à atmosfera. Outra parte permanece na vegetação, nos resíduos das lavouras, nas raízes e no solo. Quando esses fluxos se desequilibram, temos um problema. A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e as mudanças no uso da terra elevam as emissões de CO2, intensificam o efeito estufa e contribuem para o aquecimento global.
O carbono tem, assim, dupla condição. É matéria-prima da vida e um aferidor que permite medir nossa interferência no clima. Por isso ele é cada vez mais lembrado na relação com a agricultura. Não apenas pelo que lavouras, criações e agroindústrias emitem, mas também pelo que se pode evitar emitir, retirar da atmosfera e armazenar.
Por muito tempo, medimos a produção agropecuária em toneladas de grãos, litros de leite, arrobas de carne, metros cúbicos de madeira ou litros de biocombustíveis. Agora, outra contabilidade começa a ganhar corpo. Quanto carbono um sistema emite? Quanto permanece no solo? Quanto deixa de liberar? Quanto consegue capturar e armazenar?
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São perguntas que mudam a noção de produtividade no campo. Um sistema que produz alimentos, energia, fibras e matérias-primas e também amplia estoques de carbono ou reduz emissões entrega algo adicional à sociedade. Se esse desempenho puder ser medido, verificado e convertido em valor econômico, o carbono passa a integrar a lógica da produção nas fazendas.
É aí que surge o carbono como ativo da agricultura. Bem gerido, pode ser quantificado, valorado e, em certas condições, convertido em créditos comercializáveis. Recuperação de pastagens, sistemas integrados, plantio direto, florestas plantadas e melhor manejo de resíduos podem contribuir, desde que os ganhos sejam reais e duradouros.
Assim, esse elemento invisível começa a adquirir identidade econômica. Se bem manejado, poderá representar menor impacto climático, maior eficiência, diferenciação de produtos e uma fonte adicional de renda no campo. O carbono pode deixar de ser apenas parte do ciclo da vida para se tornar também parte do valor gerado pela agricultura.
*Maurício Antônio Lopes é engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
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