Agronegócio

Clima extremo na Europa afeta vendas da New Holland

Autor: Por Paulo Santos — Zedelgem (Bélgica) Publicado em: Fonte: Globo Rural
Clima extremo na Europa afeta vendas da New Holland
Foto: Luiza Zarnott/New Holland

As incertezas que levam os produtores a pisarem no freio quando o assunto é investimentos devem continuar afetando o desempenho de gigantes do agro em diversas partes do globo. A New Holland, fabricante de máquinas agrícolas, e que pertence ao grupo CNH Industrial, não escapou desse cenário. A empresa avalia que pode levar ainda alguns anos para retomar um ritmo acelerado de suas vendas.

Olhando para projeções atuais, e com base no que ouvimos de nossas equipes de mercado, parece que atingimos o fundo do poço [nas vendas]. Temos uma perspectiva de recuperação gradual em dois ou três anos
, afirmou, ao Valor, Pim Van Vynckt, gestor global de produto de colheita da New Holland.

Em seu balanço financeiro do segundo trimestre, que engloba os resultados de outras marcas do grupo, como a Case, a CNH Industrial reportou receita com vendas de máquinas agrícolas de US$ 3,2 bilhões, montante estável na comparação anual. Na Europa, a venda de tratores caiu 11%, enquanto a de colheitadeiras recuou 1%.

Em entrevista concedida ao Valor durante visita à fábrica da New Holland em Zedelgem, na Bélgica, em setembro, Van Vynckt falou sobre o atual cenário para as vendas na Europa, onde a agricultura enfrenta inúmeros problemas. Entre eles uma onda de calor que derrubou a produtividade em diversos países do continente, como a França, maior mercado para as colheitadeiras da companhia.

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O principal desafio para nós está na previsão de baixa produtividade [na agricultura]. Além disso, há uma pressão contínua sobre os preços das commodities. Como o nosso negócio depende da lucratividade dos clientes, o resultado desses agricultores é determinado pela combinação entre produtividade e preços das commodities
, afirmou.

Diante do cenário de restrição hídrica vivida em diversas regiões europeias, o Ministério da Agricultura da França estimou a safra de milho no país em 7,3 milhões de toneladas. Se confirmada, essa seria a menor produção registrada desde 1980.

Os preços das commodities estão em leve recuperação, mas, em alguns mercados como a França, não compensam as perdas sofridas pelos clientes. É preciso encontrar um equilíbrio para eles aqui na Europa, entre os custos de insumos e o retorno obtido com a venda de seus produtos
, acrescentou Van Vynckt.

Outro grande desafio para as vendas da New Holland na Europa é o recrudescimento da guerra entre Rússia e Ucrânia. O conflito, que se estende desde 2022, escalou como há muito não se via nos últimos dois meses, após ataques a portos no Mar Negro. De acordo com o executivo, como não há no horizonte perspectiva para o fim da guerra, é difícil fazer um prognóstico para as vendas de máquinas na região.

Isso depende muito da capacidade de exportação de grãos, um dos maiores desafios atuais, já que a maioria dos portos está fechada. Eles [ucranianos] estão escoando a produção para a Europa, mas a guerra impõe limitações logísticas. De qualquer forma, a Ucrânia é um mercado muito forte para nós, ainda que não no mesmo patamar de cinco anos atrás
, acrescentou.

Cenário na América do Sul e Brasil

Em linha com a tendência global, o mercado de máquinas agrícolas também mostra fraqueza no Brasil. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) projeta queda de 20% nas vendas para 2026.

A CNH não divulga os dados do Brasil, mas na América do Sul as vendas de tratores no segundo trimestre caíram 8%. Já as de colheitadeiras tiveram baixa de 29%. Para Pim Van Vynckt, há uma mudança no perfil de aquisição desses equipamentos.

As nossas projeções de longo prazo mostram uma recuperação muito lenta das vendas no Brasil, tanto para tratores quanto para colheitadeiras. Mas algo importante que observamos no Brasil e em todo o mundo, é essa rápida transição na hora da compra de máquinas, visando maior eficiência. Em vez de operar com 20 colheitadeiras, você reduz a frota para 10 ou 15 máquinas, assim, seu custo operacional acaba sendo menor
, disse.

Sean Lennon, líder de produto da New Holland para Europa, Oriente Médio e África, vê uma "situação difícil" para o mercado de colheitadeiras nas últimas duas temporadas. Durante a visita à fábrica, ele disse que o desafio atual para as vendas está no segmento de colheitadeiras de menor porte, com potência de até 313 cavalos.

É provável que os clientes estejam adiando a renovação até que a lucratividade melhore
, observou.

Por outro lado, Lennon vê horizonte mais favorável para as colheitadeiras da linha intermediária da New Holland, com potência acima de 500 cavalos.

Trata-se de um segmento em que os clientes seguem um ciclo de renovação de frota. Eles substituem os equipamentos a cada três, quatro ou cinco anos, por isso, considero essa área bastante estável
, afirmou.

O jornalista viajou a convite da New Holland