Agronegócio

Com desafios no clima e no bolso, produtores investem em boas práticas e reorganização financeira

Autor: Por Rafael Walendorff — Rio Verde (GO) Publicado em: Fonte: Globo Rural
Com desafios no clima e no bolso, produtores investem em boas práticas e reorganização financeira
Foto: Cristiano Borges

Produtores do sudoeste goiano têm apostado no uso de práticas de agricultura regenerativa para enfrentar períodos de extremos climáticos, produzir mais e obter prêmios pela colheita. Em outra frente, os agricultores focam na reorganização financeira para se desalavancar e melhorar a rentabilidade da atividade em tempos de margens apertadas pelos altos custos.

A expectativa é que a estratégia surta efeitos na safra de soja 2026/27, que já começou a ser plantada em Goiás, em meio aos impactos do El Niño.

O agricultor Paulo Buffon usa técnicas regenerativas no campo, como a adubação com compostos orgânicos, e espera reduzir os custos com a aplicação de insumos biológicos em substituição aos adubos químicos e minerais. Ele admite, no entanto, que a medida ainda não é suficiente para impactar no lucro da atividade.

Temos carregado margem zero e tivemos aumento de custos de produção. Ficou difícil fechar a conta
, diz.

As técnicas regenerativas, como o cultivo de plantas de cobertura, ajudam a diminuir a temperatura do solo e armazenar mais água para o próximo plantio. Essas práticas deverão fazer a diferença em caso de falta de chuvas no Centro-Oeste neste ciclo marcado por um El Niño de intensidade muito forte.

Produtor Paulo Buffon, de Rio Verde (GO), optou pelo girassol na segunda safra do ano passado

Divulgação

Diante das dificuldades, Buffon defende uma mudança de pensamento entre os produtores: passar de uma agricultura de produto, que mira apenas a colheita a qualquer custo, para uma agricultura de processos, que constrói resiliência na atividade a longo prazo como forma de garantir a continuidade dos negócios.

A grande inovação é ter um solo mais resiliente ao invés de apenas fazer a sucessão de culturas. Por mais que a dívida exija que se plante para ter recurso para pagar, podemos reduzir um pouco a segunda safra para pensar no sistema posterior
, afirma.

No ano passado, o produtor perdeu a janela ideal de cultivo do milho na segunda safra e optou pelo girassol em 400 hectares da fazenda em Rio Verde.

Não podemos subestimar o clima. Muitos agricultores fugiram da janela e nem estão colhendo, só vão aumentar a dívida
, relata.

Buffon faz parte do Grupo Associado de Pesquisas do Sudoeste Goiano (Gapes), que reúne 43 produtores que cultivam 200 mil hectares na região. Eles mantêm um instituto de pesquisas que adequou a dosagem de cada insumo e indicou os momentos certos de aplicação.

Não ficamos em receita de bolo e conseguimos, tecnicamente, ter uma redução do uso dos produtos de forma consciente
, detalha.

Para reduzir custos, outra estratégia usada pelos agricultores de Rio Verde é comprar insumos de forma conjunta por meio do Gapes. O pacote tecnológico sai até 30% mais barato do que na compra individual e sem a necessidade de empenho de garantias, dado o histórico de inadimplência zero e de boa produção deles.

Gestão mais eficiente

A estratégia de redução de custos também passa por transformações na gestão dos negócios. A produtora Renata Ferguson assumiu a operação da Fazenda Santa Cândida, em Rio Verde, há cinco anos. O cenário era de endividamento e contas desajustadas.

Desde então, ela tem apostado no conservadorismo e na reorganização financeira da propriedade para ter autonomia de capital e ficar menos dependente de empréstimos, ainda mais em um ambiente de juros elevados. Atualmente, gira o custeio das safras com recursos próprios e tem reserva de caixa. O financiamento bancário ficou concentrado nas máquinas.

Em ano de bonança guardamos um pouco e sempre cuidamos. O que mais precisamos é ter na fazenda uma visão empresarial
, destaca.

Nesse período, ela conseguiu quitar as dívidas e preservou a margem, com pé no freio para não expandir os negócios além do necessário. O investimento foi nas práticas regenerativas em parte dos 2,5 mil hectares cultivados na fazenda.

O milho, plantado em consórcio com a braquiária e adubado com o composto orgânico em alguns talhões da propriedade, vai gerar um prêmio de até R$ 6 por saca.

A adubação orgânica, de cerca de 300 toneladas por hectare, ainda é complementar aos insumos minerais e químicos, mas a meta, para os próximos anos, é aplicar apenas o composto feio de esterco bovino, dejetos suínos, bagaço de cana e cama de frango.

Produtora Renata Ferguson faz adubação orgânica de forma complementar aos insumos minerais e químicos

Cristiano Borges

O diferencial também ajuda, ainda mais em anos de custos mais altos. Mas o principal ganho, diz ela, é no legado que deixa para o solo e a produtividade superior que deverá colher nas próximas safras.

Buscamos processos em que conseguimos gerar benefícios para a fazenda, para o solo e para a produtividade
, acrescenta a agricultora.

Com os custos cada vez mais altos, a desalavancagem foi outra saída encontrada pelo produtor Paulo Buffon para melhorar sua rentabilidade. Há dois anos, ele preferiu entregar uma área de 2,5 mil hectares, bem localizada, às margens da rodovia em Rio Verde, pois o custo do arrendamento ficaria inviável. A proposta do dono da terra era passar o custo de 17 para 23 sacas de soja por hectare.

Hoje, o agricultor planta uma área menor, de 1,5 mil hectares, mas própria, adquirida em 2018. As parcelas estão adimplentes e serão absorvidas no fluxo de caixa até 2028.

Apesar do equilíbrio nas contas, os produtores apontam a próxima preocupação.

A raiz do produtor é da porteira para dentro, mais operacional. Faz tempo que ele deveria mudar a forma de lidar. Em 2027, com reforma tributária, não sabemos o que vai acontecer. Estamos trabalhando sem saber como será. Hoje a maior necessidade é ter tributarista e não um agrônomo na fazenda
, declara Buffon.