Conformidade ambiental é parte da estratégia de exportação do agro brasileiro
Por muito tempo, falar em conformidade ambiental no agronegócio brasileiro esteve associado principalmente ao cumprimento da legislação e à redução de riscos jurídicos. Essa perspectiva, porém, ampliou-se. Para quem produz e exporta, a regularidade socioambiental está se tornando também uma condição de acesso a mercados e, cada vez mais, um componente da própria estratégia comercial.
A mudança está acontecendo nos principais mercados consumidores do mundo. União Europeia, Estados Unidos, China e Japão vêm aumentando exigências relacionadas à rastreabilidade, ao desmatamento, ao uso da terra e às emissões de gases de efeito estufa.
Na prática, isso significa que a origem de uma commodity e as condições em que ela foi produzida podem ser tão relevantes para uma negociação quanto qualidade, preço, volume e capacidade de entrega.
A entrada em vigor de novas regras, como a European Union Deforestation Regulation (EUDR), evidencia essa transformação. Commodities como soja, carne bovina, café, cacau e madeira passam a estar submetidas a mecanismos de comprovação relacionados à origem e ao desmatamento.
Ao mesmo tempo, grandes compradores, tradings e instituições financeiras vêm impondo processos próprios de devida diligência socioambiental, muitas vezes com critérios que vão além das exigências mínimas da legislação.
Mais do que uma nova camada de documentos a ser providenciada antes do embarque, o que está em jogo é a capacidade do agronegócio brasileiro de demonstrar, de forma confiável e verificável, como e onde seus produtos foram produzidos.
Da porteira ao porto
Nesse novo cenário, rastreabilidade passa a ser um ativo comercial. Para exportar, é necessário conhecer a origem da produção, mapear geograficamente as áreas produtivas e manter mecanismos capazes de acompanhar eventuais alterações na situação socioambiental dessas áreas.
A chamada rastreabilidade "da porteira ao porto" ganha importância justamente porque permite responder a uma pergunta que compradores internacionais fazem com frequência crescente: de onde veio esse produto?
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Isso exige uma mudança de mentalidade dentro das empresas. Cadastro Ambiental Rural (CAR), licenciamento ambiental, regularidade de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente, outorgas de uso da água e demais documentos de regularidade precisam fazer parte de um sistema de gestão capaz de acompanhar a operação continuamente, em vez de serem arquivos utilizados apenas quando solicitados em uma auditoria.
O mesmo vale para a cadeia de fornecedores. Contratos com cláusulas de conformidade socioambiental, monitoramento georreferenciado e uso de imagens de satélite para identificar alertas de desmatamento são instrumentos que permitem prevenir problemas.
Há ainda uma dimensão financeira. Instituições financeiras vêm incorporando critérios de regularidade socioambiental à concessão de crédito rural e agroindustrial. Assim, uma deficiência na gestão ambiental pode deixar de ser apenas um problema regulatório e se transformar em um problema comercial, financeiro e estratégico.
Não existe um "checklist definitivo" de conformidade ambiental para quem atua no comércio internacional. As regulamentações mudam, os países atualizam suas exigências e os próprios compradores estabelecem critérios adicionais.
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Por isso, é importante estruturar processos permanentes: realizar auditorias internas, manter atualizados o CAR e as licenças ambientais, monitorar continuamente as áreas de produção e os fornecedores, capacitar as equipes e acompanhar as mudanças regulatórias nos mercados de destino.
Para empresas que atuam em diferentes países, o desafio é ainda maior. Cada mercado pode apresentar requisitos próprios, diferentes prazos e formatos de documentação. Transformar essas informações em procedimentos internos exige conhecimento técnico e capacidade de integrar legislação ambiental brasileira, gestão da cadeia produtiva e exigências internacionais.
De obrigação à vantagem competitiva
Uma empresa capaz de demonstrar, com dados e evidências, a regularidade ambiental e a origem dos produtos está mais preparada para negociar com compradores que exigem transparência e critérios socioambientais. Está também melhor posicionada para responder rapidamente a auditorias, processos de devida diligência e novas regulamentações.
Nesse sentido, investir em conformidade não pode ser visto apenas como um custo adicional da exportação, mas sim como uma forma de aumentar a previsibilidade da operação, reduzir vulnerabilidades na cadeia de fornecimento e ampliar acesso a mercados e contratos de maior exigência.
O agronegócio brasileiro construiu uma posição relevante no comércio internacional justamente porque conseguiu combinar escala, produtividade e capacidade de atender grandes mercados. A próxima etapa dessa competitividade passa pela capacidade de comprovar também a sustentabilidade e a regularidade daquilo que produz. O mundo está pedindo mais evidências. E o agro que estiver preparado para apresentá-las terá uma vantagem importante.
*Eduardo Trevisan é diretor de ESG e Certificações do Imaflora
As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural