Conheça a horta urbana que deu a Zeca Pagodinho o título de 'embaixador'
Quem se lembra das imagens de Zeca Pagodinho percorrendo as ruas de Xerém, em um quadriciclo vermelho, para ajudar moradores afetados pelas enchentes de 2013?
Mais de uma década depois, o vínculo do cantor com o distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também se manifesta em uma iniciativa que combina produção de alimentos, capacitação de agricultores e geração de renda.
A Horta Xerém I integra o programa de sustentabilidade do Instituto Zeca Pagodinho, fundado pelo cantor em 1999. Com mais de 11 mil mudas de hortaliças, o espaço abastece cozinhas solidárias da região e pretende alcançar uma produção de até 40 toneladas de alimentos por ano, contribuindo para o enfrentamento da vulnerabilidade social.
Entre as espécies cultivadas estão abóbora italiana, acelga, alface, beterraba, brócolis e escarola, além de frutas como acerola, araçá, carambola, grumixama, manga Palmer e tangerina Ponkan.
O projeto também levou Zeca a receber o título de Embaixador da Agricultura Urbana e Periurbana no mês passado. A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, entregou a homenagem em nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para mim, as coisas vão acontecendo. Eu sempre gostei de ajudar, seja com cestas básicas, seja com ações de distribuição de brinquedos, ovos de Páscoa e outras iniciativas, afirmou o cantor à Globo Rural.
O terreno estava parado. Então, pensamos: vamos em frente e vamos tocar o projeto. É muito bonito passar lá de manhã e ver tudo verdinho e as pessoas participando, completou
Segundo Louiz Carlos, presidente do instituto e filho do cantor, a aproximação com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) ocorreu por intermédio de um amigo de Zeca que, na época, era cônsul da Venezuela. Ao saber que Louiz trabalhava na implantação de uma horta no instituto, o grupo ligado à agricultura familiar visitou o espaço e conheceu a dimensão do terreno.
Louiz, presidente do instituto e filho do cantor, à esquerda
Divulgação
A horta ocupa uma área cedida pelo próprio cantor e conta com a participação do Ministério da Agricultura e do MDA. Dos 21 mil metros quadrados disponíveis, 8 mil já são utilizados pelo projeto.
Ainda há muito o que podemos fazer ali no terreno. Agora vamos começar a plantar cacau e café, por exemplo, contou Zeca
A expansão inclui a implantação de um sistema agroflorestal, com árvores frutíferas, e a produção de mudas e insumos orgânicos para comercialização. A equipe também pretende desenvolver ações de reflorestamento e transformar o local em uma unidade pedagógica para receber estudantes e capacitar agricultores.
Hoje, a horta é o carro-chefe do programa de sustentabilidade, afirma Louiz.
Como o projeto começou
Desde a fundação, em 1999, o Instituto Zeca Pagodinho desenvolve programas musicais voltados à comunidade. Ao longo dos anos, a instituição também promoveu cursos de formação e ações de empregabilidade. A ampliação dessa atuação começou a ganhar força em 2020, durante a pandemia, quando a equipe passou a discutir iniciativas para diferentes faixas etárias.
Nesse processo, a sustentabilidade e a educação socioambiental ganharam espaço entre as prioridades do instituto. Segundo Louiz, a preocupação com essas questões acompanha o cantor desde antes da criação da instituição.
Sempre digo que o instituto nasceu de inquietações do meu pai
Entre elas estavam a falta de oportunidades de formação musical na infância e as dificuldades enfrentadas por amigos que, sem conhecimento teórico, não conseguiram seguir carreira na música.
O desperdício de recursos naturais, especialmente de água, também era uma preocupação. Sempre pensamos que poderíamos trabalhar essas questões na região, diz Louiz
A equipe começou, então, a estruturar projetos de reflorestamento, educação socioambiental e cultivo de alimentos em pequenos espaços. Em 2023, o instituto realizou seu primeiro curso de hortas em pequenos espaços, iniciativa que ajudou a consolidar o trabalho com agricultura urbana.
A articulação com o poder público também contribuiu para viabilizar a expansão do projeto. As deputadas Benedita da Silva e Talíria Petrone destinaram emendas parlamentares para apoiar as atividades.
Equipe durante plantio na Horta Xerém
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Os recursos financiam tanto o funcionamento da horta quanto sua estruturação como unidade pedagógica, onde agricultores da região recebem capacitação. A equipe também busca tornar a operação financeiramente sustentável, de modo que a comercialização dos alimentos ajude a custear as atividades.
Da horta às cozinhas solidárias
A Horta Xerém I também conta com a parceria da organização não governamental Cidades Sem Fome (CSF), que transforma áreas urbanas ociosas ou degradadas em espaços de cultivo de alimentos e geração de renda.
Antes de definir o plantio, a equipe realizou uma análise do solo e selecionou as espécies mais adequadas ao terreno. A escolha dos cultivos também leva em conta os hábitos de consumo da população local.
Estamos sempre fazendo mudanças, porque percebemos que muitas folhas e legumes bastante consumidos em São Paulo não têm a mesma procura no Rio. Então, estamos adaptando o cultivo de acordo com a demanda, explica Louiz
Atualmente, três pessoas trabalham na horta, e a expectativa é ampliar a equipe para seis. Paralelamente, o instituto desenvolve duas iniciativas de capacitação para agricultores da região: uma em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e outra com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Equipe durante plantio
Divulgação
A proposta é que os participantes se organizem em coletivos ou associações para trabalhar no espaço e comercializar parte da produção. O modelo prevê destinar uma parcela dos alimentos à distribuição e outra à venda, gerando renda para os agricultores.
Além das hortaliças, os produtores poderão comercializar mudas e insumos orgânicos, como caldas utilizadas no cultivo. Com a implantação do sistema agroflorestal, a expectativa é ampliar a oferta com frutas.
Os moradores de Xerém também podem comprar diretamente dos produtores que trabalham na horta. Para Louiz, a formalização dos agricultores em cooperativas ou coletivos poderá fortalecer essa atividade e ampliar as oportunidades de renda.
Parte da produção segue para o Fórum de Cozinhas Solidárias, responsável por conectar o projeto a cozinhas da Baixada Fluminense. A articulação permite distribuir os alimentos de acordo com as necessidades de cada unidade.
Assim, os alimentos chegam a outras localidades além de Xerém e são encaminhados à cozinha que mais precisa naquele momento, sempre dentro do território da Baixada, explica Louiz.
Um espaço de formação
Além de ampliar a produção agrícola, o instituto quer transformar a horta em um espaço de aprendizagem para estudantes e agricultores. Para isso, a equipe ainda dialoga uma parceria com as secretarias municipais de Saúde e Educação, com o objetivo de integrar o local a atividades pedagógicas.
Na área da saúde, a proposta é criar um canteiro de plantas medicinais que possa fornecer espécies a unidades de saúde próximas.
Sabemos que os fitoterápicos fazem parte do SUS e queremos fornecer essas plantas para as unidades, afirma Louiz
A iniciativa também pretende aproveitar as áreas do terreno que ainda não recebem atividades agrícolas.
A ideia é desenvolver outros projetos nas demais áreas do terreno e aproveitar ao máximo para colocar à disposição da comunidade, conclui o presidente do instituto.