Contaminacao que nao se ve: analise de solo e agua ganha peso na gestao ambiental de empresas
Uma área pode aparentar estar em boas condições e ainda assim carregar sinais de contaminação no solo ou na água. Em São Paulo, levantamento da CETESB mostra que 12,6% das áreas contaminadas cadastradas no estado já apresentam risco confirmado e outras 20,4% estão em processo de remediação. O cenário evidencia um desafio para empresas e propriedades produtivas: parte dos riscos ambientais não pode ser identificada apenas pela observação do local.
Na água, a situação é semelhante. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) destaca que a aparência de rios, lagos e reservatórios não é suficiente para determinar sua qualidade. A avaliação depende de indicadores físico-químicos e biológicos obtidos por meio de coletas e análises realizadas de forma sistemática.
Esse tipo de acompanhamento vem ganhando importância em operações que dependem diretamente dos recursos naturais ou geram efluentes e resíduos ao longo do processo produtivo, caso de atividades agroindustriais, indústrias de alimentos e diferentes segmentos ligados ao campo. A análise laboratorial pode identificar, por exemplo, alterações na composição do solo, presença de metais, parâmetros microbiológicos na água e características de efluentes que não seriam percebidas a olho nu.
Quando falamos em risco ambiental, um dos principais cuidados é não associar ausência de sinais visíveis à ausência de contaminação. Uma água pode estar aparentemente limpa ou um solo pode não apresentar nenhuma alteração perceptível e, ainda assim, ter parâmetros que precisam de atenção. É justamente a análise laboratorial que consegue transformar essas amostras em dados objetivos, afirma Keila Pinzan Alves, gerente de Qualidade do Hidrolabor.
O desafio também se estende aos resíduos gerados pelas atividades industriais. No Brasil, empresas precisam declarar anualmente ao Inventário Nacional de Resíduos Sólidos informações sobre geração, tipologia, armazenamento e destinação final dos materiais produzidos. O instrumento integra o Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos, o SINIR.
Conhecer a composição de um resíduo é uma das etapas que podem auxiliar na definição de seu gerenciamento e de sua destinação. O mesmo raciocínio vale para os efluentes: acompanhar parâmetros laboratoriais permite verificar suas características e avaliar se houve mudanças ao longo de determinada operação.
No caso do solo, o monitoramento também pode ajudar a compreender o histórico de uma área. Além dos resultados encontrados na amostra, entram nessa avaliação fatores como a atividade desenvolvida no local, possíveis fontes de contaminação, uso anterior da propriedade e características do entorno.
Um resultado isolado fornece uma fotografia daquele momento. Quando existe acompanhamento periódico, conseguimos construir um histórico e observar se algum parâmetro está mudando ao longo do tempo. Isso dá à empresa a possibilidade de investigar a origem de uma alteração antes de lidar com uma situação mais complexa, explica Keila.
Para o setor produtivo, essa lógica muda o papel da análise ambiental. Em vez de ser utilizada apenas depois que um problema já foi identificado, ela passa a integrar medidas preventivas e de controle da operação.
A própria ANA vem ampliando o uso de informações sistematizadas para gestão ambiental. Em 2026, o órgão lançou o Portal da Qualidade da Água, que reúne dados produzidos pelos estados dentro da Rede Nacional de Monitoramento da Qualidade da Água e transforma os resultados das análises em informações para acompanhamento das condições dos corpos hídricos do país.
Monitoramento ambiental não significa apenas procurar uma contaminação já conhecida. Ele serve justamente para criar parâmetros, acompanhar tendências e perceber mudanças. Quanto maior a série histórica, maior a capacidade de entender o que é normal para aquela operação e o que precisa ser investigado, diz Keila.