Crise climatica no campo: o que as enchentes do RS ensinam sobre decidir
Mais de 206 mil propriedades rurais foram afetadas pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, segundo o relatório de perdas elaborado pela Emater/RS-Ascar. O levantamento registrou 48.674 produtores de feijão, milho e soja prejudicados e 19.190 famílias com perdas em casas, galpões, silos, estufas e aviários. Só na soja, a Emater estimou uma quebra de 2,71 milhões de toneladas.
No campo, a crise também foi de informação. Estradas vicinais destruídas isolaram propriedades, e saber quem precisava de quê dependia de dados que chegavam por canais desencontrados. Foi esse problema que chamou a atenção do Capitão Roberto Farina, que acompanhou como porta-voz da Defesa Civil do Estado de São Paulo a atuação paulista no apoio aos gaúchos.
No Rio Grande do Sul, a informação existia. O problema é que ela chegava picada, por mensagem, por planilha, por ligação, e cada equipe enxergava um pedaço diferente da mesma tragédia, afirma Farina.
O que a tragédia ensinou sobre informação em crise?
A experiência virou a dissertação
O papel da informação na gestão do conhecimento em desastres naturais: o caso da Defesa Civil de São Paulo na tragédia do Rio Grande do Sul, defendida e aprovada em 2026 no Mestrado em Administração da ESPM. A conclusão é que, sem uma forma estruturada de organizar a informação, a organização decide pior durante a crise e desperdiça o conhecimento que a tragédia gera.
O próprio relatório da Emater mostra o valor do caminho inverso. Os números vieram do sistema Sisperdas, abastecido pelos escritórios regionais e municipais da instituição, uma forma estruturada de transformar relatos dispersos em base para política pública. Para o agro, organizar esse aprendizado é questão de sobrevivência: levantamento da CNM (Confederação Nacional de Municípios) aponta que, entre 2013 e 2025, os desastres climáticos causaram R$ 356,6 bilhões em prejuízos à agricultura e R$ 107,5 bilhões à pecuária no país, entre secas, estiagens e excesso de chuva.
Quando a operação termina e as equipes voltam para casa, muito do que se aprendeu volta junto, na cabeça de cada um. Se ninguém registra e organiza, a próxima crise começa do zero, diz.
Como decidir quando todas as demandas parecem urgentes?
Em uma enchente ou numa estiagem prolongada, quem coordena a resposta precisa escolher entre alternativas que competem entre si: que estrada recuperar primeiro, para onde levar ração, quais famílias atender antes. A Pesquisa Operacional, ramo da matemática aplicada, oferece métodos de apoio multicritério à decisão que comparam essas opções considerando vários critérios ao mesmo tempo.
A Pesquisa Operacional não tira a decisão do líder. Ela organiza as alternativas, deixa claro o peso de cada critério e reduz o espaço para o viés na hora em que todo mundo está cansado e com medo de errar, explica Farina.
Que ferramentas nasceram dessa experiência?
O diagnóstico levou o Grupo NEOeX, a um benchmark com o mercado de defesa e a uma parceria com Bruno Rosa, CTO da Teltex, empresa credenciada como EED (Empresa Estratégica de Defesa). Daí saiu a proposta de uma plataforma autônoma de superioridade decisória, liderada pela Teltex, com base científica no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), sob coordenação do Comandante Marcos dos Santos e participação do professor Miguel Lellis, do ITA Fortaleza, e na UFCG (Universidade Federal de Campina Grande). A plataforma organiza a informação em tempo real e preserva o conhecimento de cada operação.
A plataforma nasce para que a próxima crise encontre líderes mais preparados, com a informação organizada em tempo real e o conhecimento da última operação disponível para a seguinte, diz.
A outra frente é a formação de pessoas. Pela NEOeX, Farina oferece treinamento para que profissionais de segurança privada assumam cargos de liderança e chefia, com conteúdos de gerenciamento de crise, análise de risco e tomada de decisão.
O que quem lidera no campo pode fazer desde já?
Secretarias municipais de agricultura, cooperativas e grandes propriedades podem adotar práticas simples antes do próximo evento extremo: manter um cadastro atualizado de propriedades, rebanhos e acessos, definir quem centraliza as informações quando a emergência começa e registrar, ainda durante a crise, o que foi decidido e por quê. Foi esse tipo de registro estruturado que permitiu à Emater dimensionar as perdas de 2024.