Cuidar da fonte para atravessar as secas: um pacto entre conservação e seguro rural
As políticas agrícolas e florestais são geralmente tratadas separadamente, ao contrário do mundo físico. A floresta ajuda a sustentar as chuvas das quais dependem lavouras, pastagens, rios e hidrelétricas. A evaporação das árvores responde por cerca de um terço da chuva durante a safra da soja nas regiões brasileiras estudadas.
Pesquisadores estimaram ainda que o desmatamento amazônico reduziu a precipitação sazonal entre 6% e 30% nos estados produtores analisados, causando perda de aproximadamente 700 mil toneladas de soja.
Quando a fonte se enfraquece, aumenta o custo de atravessar a seca. Dados de desastres compilados pela InfoAmazonia (2025) mostram que os prejuízos agropecuários declarados na Amazônia Legal alcançaram média de aproximadamente R$ 6 bilhões por ano entre 2021 e 2024.
Em 2025, segundo o Banco Central do Brasil (BCB), seca e estiagem responderam por 84,4% da exposição estimada do Sistema Financeiro Nacional aos riscos climáticos físicos. O BCB também alerta que eventos climáticos afetam produção, renda rural, valor das garantias e capacidade de pagamento.
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Um acordo público e privado deve conectar as políticas. O agro ajudaria a conservar a infraestrutura natural que reduz seu risco. O país ajudaria o produtor a enfrentar o risco climático que permanece.
Lideranças do agronegócio poderiam apoiar incisivamente o cumprimento do Código Florestal e a destinação das florestas públicas para conservação e usos sustentáveis e o controle do desmatamento. Segundo o Observatório das Florestas Públicas (2026), cerca de 50 milhões de hectares de florestas públicas permaneciam sem destinação na Amazônia em 2025, áreas que concentraram aproximadamente 20% do desmatamento.
Destiná-las para fins de conservação, o que já é determinado prioritariamente na Constituição, reduz o espaço para grilagem e desmatamento especulativo.
Ao mesmo tempo, governo e setor privado desenhariam um seguro rural mais estável, previsível e orientado à redução do risco climático. O princípio já começa a ser testado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária no Zoneamento Agrícola de Risco Climático por Níveis de Manejo.
Segundo o MAPA (2025, 2026), práticas como cobertura do solo, maior infiltração e conservação da água podem reduzir perdas, e produtores classificados nos melhores níveis de manejo podem receber subvenção de até 50% ao seguro rural nas modalidades contempladas pelo programa.
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É necessário avançar mais: criar fontes estáveis para seguro rural, mitigação e adaptação climáticas. Uma fonte potencial é o Fundo Social do Pré-Sal que incluiu entre as finalidades adaptação climática, segurança alimentar e infraestrutura hídrica.
Além disso, seria pertinente discutir mudanças legais para mobilizar recursos dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Norte (FNO), Nordeste (FNE) e Centro-Oeste (FCO). Estes fundos constitucionais foram criados como instrumentos de financiamento, e seu uso para capitalizar um fundo de seguro não decorre automaticamente das regras atuais.
Um acordo robusto deveria reconhecer a cadeia lógica: a floresta ajuda a trazer a chuva; o bom manejo ajuda a guardar a água; o seguro ajuda quando a chuva falha. Líderes públicos e privados do agronegócio conhecem diferentes partes desse problema e das soluções.
Colocá-las na mesma mesa seria mais produtivo do que continuar tratando conservação florestal e proteção ao produtor como agendas separadas. As interações de clima, floresta e produção fluem independentemente das preferências políticas. A política é que deve se adaptar.
Quem cuida da fonte de água fortalece a colheita. Quem enfrenta a seca precisa de proteção.
*Paulo Barreto é pesquisador associado do Imazon e do projeto Amazônia 2030
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