Dependência do Brasil de fertilizante importado deve aumentar neste ano
O Brasil deve aumentar ainda mais sua dependência de fertilizantes importados neste ano. E a aplicação de alguns desses insumos deve diminuir no campo, com impacto na produtividade da soja. A afirmação foi feita ontem pelo country manager da Mosaic no Brasil, Eduardo Monteiro, durante o "Vozes do Agro", evento realizado pela Globo Rural e pelo Valor, em São Paulo, para discutir os principais desafios do setor.
O Brasil, até o ano passado, importava 85% do que consumia em fertilizantes. Este ano, essa dependência vai aumentar, disse o executivo. A explicação para esse cenário está na geopolítica, com duas guerras em regiões fornecedoras de insumos para fertilizantes em andamento, na Ucrânia e no Oriente Médio.
Monteiro disse que a situação mais crítica é a dos fosfatados. O custo elevado do enxofre está prejudicando de 30% a 40% da produção mundial de fósforo. No Brasil, a importação de enxofre neste ano deve cair 50%, afirmou. É um indicativo de que a produção de fósforo deve ter uma queda ainda maior, já que o enxofre é usado na extração do fósforo das rochas fosfáticas.
Nosso custo de produção é muito oneroso e a indústria se viu inviabilizada de continuar sua produção, lamentou Monteiro. Ele lembrou que essa era a matéria-prima da qual o Brasil menos dependia de importações até antes do início da guerra no Irã, no fim de fevereiro deste ano, que levou ao fechamento do estreito de Ormuz, com reflexos no fluxo comercial.
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Este ano, o Brasil vai aplicar 22% menos P2O5 do que aplicou no ano passado. O agricultor tomou essa decisão consciente e reduziu os volumes que foram cabíveis, afirmou o executivo, em referência à molécula que serve de base para a composição de adubos fosfatatos.
Ele destacou que a escassez de fósforo levou indústrias a paralisarem atividades. E argumentou que esse problema ainda está pouco dimensionado, levando-se em conta sua gravidade.
Precisamos entender como minimizar o risco da escassez de fósforo no Brasil. A indústria, em sua grande maioria, está com atividades paralisadas, disse.
No segmento, a perspectiva de reabertura das unidades de fosfatados depende de uma reação dos preços dos fertilizantes ou de uma queda do custo do enxofre.
Outro impacto da restrição no fluxo dos insumos é que a indústria nacional de fertilizantes já projeta os menores estoques de passagem de sua história. Monteiro ponderou que o país não deve atingir a autossuficiência na produção, mas precisa de apoio para reduzir a demanda por insumos de fora do país.
A indústria precisa de apoio para investimentos, de um marco regulatório de concessões minerais mais claro. Temos uma questão tributária que nos tira competitividade, disse.
Monteiro afirmou que o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) prevê linhas de crédito para o setor. No entanto, o acesso ainda é burocrático e, com os juros elevados, a indústria fica mais cautelosa em investir.
Também no painel, o presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), ressaltou que os juros altos impedem investimentos do setor produtivo.
O deputado mencionou que as dificuldades de obter licenciamento ambiental atrasam projetos de extração mineral que podem incentivar a produção. E avaliou como "utópica" a medida prevista no Profert de um percentual mínimo de fertilizantes nacionais nas misturas.
Os custos de produção de fertilizantes são muito maiores e muito mais difíceis do que a importação desses produtos. É algo que a gente ainda vai levar muito tempo, não é nem [no] médio, mas [no] longo prazo, para conseguir ter essa produção aqui e reduzir essa dependência, argumentou.
Guerras e clima
Em apresentação sobre o cenário global para os fertilizantes, Arián Krakov, sócio da consultoria Bain & Company, avaliou que a alta de preço dos insumos, por causa da guerra no Oriente Médio, é mais um componente de uma "tormenta perfeita" para o agronegócio. Aumenta a incerteza já causada pelos juros altos e dificuldade de crédito, oscilação de cotações de commodities e preocupações com o fenômeno El Niño.
Com a escalada do conflito, os preços dos insumos e o custo para transportá-los aumentaram. A situação deve permanecer se não houver um acordo que normalize o fluxo de mercadorias pelo estreito de Ormuz.
Tentaram fazer outro caminho. Mas fica muito caro. E, nessa visão logística, a gente começa a entender porque tem esse impacto nos fertilizantes, disse.
Ele destacou que há projetos de aumento de capacidade de produção de fertilizantes em diversas regiões do mundo até 2030. Mas devem ser insuficientes.
Isso não se resolve nem nesta safra, nem na próxima, admitiu.
No caso da ureia, a exportação global deve cair 21% em relação ao nível pré-guerra no Golfo.
O Brasil é hoje o terceiro principal destino das exportações de fertilizantes do Golfo Pérsico. Na safra 2025/26, os maiores fornecedores do composto NPK foram China, Rússia e Canadá. Segundo Krakov,
o Brasil trocou de fornecedores, mas ainda está muito exposto. Poderia ser pior, é verdade. Mas está muito exposto.