Agronegócio

Desembolsos do crédito rural caíram 30% no primeiro trimestre da safra

Autor: Por Rafael Walendorff — Brasília Publicado em: Fonte: Globo Rural
Desembolsos do crédito rural caíram 30% no primeiro trimestre da safra
Foto: Canva/Creative Commons

O primeiro trimestre do Plano Safra 2026/27 foi marcado por uma queda de quase 30% no desembolso de crédito rural pelas linhas tradicionais de financiamento. De julho a setembro deste ano, as instituições financeiras desembolsaram R$ 80 bilhões a pequenos, médios e grandes produtores, em comparação a R$ 113,4 bilhões no mesmo período de 2026.

O número de contratos de financiamentos também caiu, de 717,6 mil no primeiro trimestre da safra 2025/26 para 555,3 mil nos três primeiros meses deste ciclo. Já a área financiada cresceu de 10,9 milhões de hectares para 12,8 milhões de hectares.

Os produtores têm aplicado mais recursos próprios ou recorrido a mecanismos de mercado, muitas vezes mais caros que as linhas do Plano Safra, para financiar o plantio no ciclo 2026/27. A situação reflete o endividamento e a inadimplência, que impedem o acesso a crédito novo de muitos produtores nas instituições financeiras.

Houve quedas na concessão de crédito rural em todas as modalidades (custeio, investimentos, comercialização e industrialização) e para todos os portes de produtores. O recuo é mais acentuado entre os grandes (37,3%), para os quais o desembolso saiu de R$ 63,4 bilhões para R$ 39,7 bilhões entre o primeiro trimestre da safra passada e desta. Na agricultura familiar, a retração foi menor, de 6%; os médios produtores acessaram montante quase 32% menor.

Os dados foram extraídos no dia 6 do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) do Banco Central e compilados pelo Valor. Os números não levam em conta a emissão de Cédulas de Produto Rural (CPRs), cujos dados o BC não divulga. As informações são parciais e podem mudar conforme a data de consulta.

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Os desembolsos caíram 26,3% nas linhas de custeio, para R$ 50 bilhões, 16,4% na comercialização (R$ 8,1 bilhões) e 46,4% nas linhas de industrialização, para R$ 6 bilhões. A retração também foi acentuada nas linhas de investimentos, nas quais a liberação de crédito caiu 35,1%, a R$ 15,9 bilhões.

No setor produtivo, a avaliação é que a situação é heterogênea, mas só terá solução com uma medida efetiva de renegociação ampla das dívidas. A queda nas concessões de financiamentos é explicada, em parte, pelo nível de inadimplência dos produtores e consequente negativa de crédito novo a esse público, mas há também quem optou por deixar de pagar parcelas da safra passada e usar o recurso para custear o novo plantio.

O que nós alertamos por ofício ao Ministério da Fazenda está se concretizando. A Medida Provisória 1.376/2026 trouxe uma linha de crédito que segue alijando a maior parte dos agricultores que precisam da renegociação. Vamos bater recorde de inadimplência e de ativo problemático até que uma medida efetiva seja implementada
, afirmou Fabrício Rosa, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). Menos de R$ 6 bilhões foram renegociados até o início desta semana pelas regras da MP, frente um potencial de R$ 120 bilhões.

Os grandes produtores ainda conseguem compensar a dificuldade de acesso ao crédito rural, em parte, com a emissão de Cédulas de Produto Rural (CPRs), menos burocrática. Em julho e agosto, o financiamento rural pelo título superou R$ 32,4 bilhões.

A alternativa soluciona a necessidade imediata, mas pode ser um problema no longo prazo. Além de mais caras que o crédito rural, as CPRs seguem fora da renegociação das dívidas. As cédulas, que são títulos de dívida, não são regulamentados pelo Manual do Crédito Rural (MCR) do BC.

Cláudio Brisolara, gerente do Departamento Econômico da Federação da Agricultura e Pecuária de São Paulo (Faesp), lembrou que as CPRs não entram nas recuperações judiciais e suas emissões podem funcionar como estratégia de proteção nas instituições financeiras. Para ele, os produtores não compreendem o maior rigor aplicado a esses títulos e as limitações de negociação em momentos de dificuldades.

Os produtores não são bem informados sobre os riscos e consequências a que estão expostos na tomada de crédito. Se o negócio é claro e transparente, e os riscos estão expostos, a CPR é um instrumento importante
, avaliou. Ele observou que a alavancagem no campo ocorreu tanto pelo crédito bancário quanto pelos títulos. "O problema não é o veículo de crédito", avaliou.

Em cenário de mais seletividade e aversão ao risco, as cooperativas de crédito, que atuam de forma mais capilarizada e próxima dos produtores cooperados, lideram as concessões de financiamentos rurais, com desembolso de R$ 28,6 bilhões no primeiro trimestre desta safra. Mas houve queda em relação ao desempenho do primeiro trimestre da safra 2025/26.

Com R$ 27,6 bilhões liberados, os bancos públicos aparecem na sequência. Entre eles, porém, a queda é maior. No mesmo período do ano passado, os empréstimos já haviam alcançado R$ 51,3 bilhões.