Agronegócio

Dez desafios que o próximo governo terá no agronegócio

Autor: Por Rafael Walendorff Publicado em: Fonte: Globo Rural
Dez desafios que o próximo governo terá no agronegócio
Foto: Adriano Brito/CNA

Os números não deixam dúvidas sobre a importância do setor agropecuário na economia do país. Segundo o Cepea/CNA, o PIB do campo alcançou R$ 3,2 trilhões em 2025, sendo aproximadamente R$ 2,06 trilhões no ramo agrícola e R$ 1,14 trilhão no ramo pecuário. Isso significa que a participação do agronegócio na economia brasileira foi de 25,1% no ano passado.

O Brasil está entre os principais produtores mundiais dos produtos agropecuários mais consumidos no mundo, como soja, café, suco de laranja, açúcar, carne bovina e de frango. O peso do agro brasileiro é testemunhado não apenas dentro do país, mas também nos diversos destinos que importam esses itens.

Apesar da escala e da relevância internacional, o setor enfrenta uma série de desafios que exigem respostas do próximo governo, do endividamento rural aos gargalos de infraestrutura, passando pelo acesso ao crédito, pelo seguro rural e pela dependência de fertilizantes importados. Confira a seguir dez desafios que o próximo governo terá.

1 - Endividamento

A inadimplência na carteira de agronegócios do Banco do Brasil alcançou 6,27% ao final do primeiro semestre de 2026. O cenário leva à necessidade de uma solução efetiva para reduzir o grau de endividamento, acentuado por problemas climáticos, aumento de custos, encarecimento do crédito e pela perda de rentabilidade em algumas commodities.

O verdadeiro avanço não está apenas em oferecer soluções para dívidas vencidas, mas em criar condições para que as perdas de uma safra não se transformem em crises financeiras nas safras seguintes
, observa David Télio, especialista em crédito rural e diretor de Novas Estruturas Financeiras da Terra Magna.

2 - Crédito

O desafio é reduzir juros para diminuir o peso do crédito nas contas do agro, já que o setor é muito dependente de financiamentos para girar a safra anualmente. Taxas de dois dígitos, mais custos cartorários, tornam o dinheiro caro. A saída passa pela redução das dívidas e dos riscos associados ao setor e pelo equilíbrio entre Plano Safra e modalidades de financiamentos privados.

As margens achataram, só que os custos aumentaram muito. Os juros 'matam' o produtor. Ele está olhando o que pode ou não fazer. Não vai fazer compras, não vai fazer os investimentos necessários para passar pela crise e vai desativar ativos, vender fazendas, deixar de trabalhar em algumas coisas, vai deixar de operar com um maquinário novo
, afirma Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

Leia também

Flávio Bolsonaro venceu Lula em oito dos dez principais municípios do agro

3 - Seguro rural

Em tempos de mudanças climáticas, regulamentar o novo marco legal do seguro é uma das prioridades, além de garantir orçamento para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e implementar o Fundo Catástrofe para ampliar a área segurada com subvenção do governo, atualmente em torno de 3%.

Quando ocorre uma quebra de safra, o problema rapidamente deixa de ser apenas produtivo e passa a ser financeiro. Quanto maior a parcela do risco organizada antes do evento, menor a possibilidade de toda a perda terminar em inadimplência, renegociação e necessidade de socorro posterior
, aponta Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e do Seguro Rural do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).

4 - Comércio internacional

Dar alternativas ao setor diante da turbulência no mercado exterior, marcado por imposição de tarifas, cotas e embargos, está entre as prioridades. A China já mostrou que vai reduzir a compra de soja futuramente. Como o Brasil vai se preparar para isso? A União Europeia exige o fim dos antimicrobianos nos produtos que vão para lá. O Brasil vai conseguir se ajustar a essa determinação?

A política externa não pode ser contrária aos interesses do Brasil e de continuarmos competitivos no mercado internacional. Para que isso aconteça, é importante saber navegar nesse ambiente em que a geopolítica é cada vez mais desafiadora
, resume a diretora executiva da Vallya Agro, Larissa Wachholz.

5 - Política ambiental

Manter o ativo ambiental das áreas rurais e buscar formas de valorizá-lo e monetizá-lo é um desafio ante a pressão por novos desmatamentos e expansões de área. Aqui, o receio é com alterações mais profundas no Código Florestal que, além de permitir derrubada de vegetação nativa, impactarão na imagem o país e do setor como um todo.

O Código Florestal já existe como política, mas ainda não como prática consolidada nos biomas. Há informação, há instrumentos, mas falta transformar esse acúmulo em decisões concretas que orientem o uso da terra e a proteção da vegetação nativa
, afirma Marcelo Elvira, secretário executivo do Observatório do Código Florestal.

6 - Rastreabilidade

Mercados têm exigido cada vez mais rastreabilidade dos produtos, principalmente a União Europeia. Em dezembro de 2026, entrará em vigor a Lei Antidesmatamento do bloco, que exigirá a comprovação, por parte do Brasil, de que soja, café, cacau, borracha natural, madeira, carne bovina e óleo de palma exportados para lá não saíram de áreas desmatadas após 2021.

No caso da carne bovina, será preciso implementar o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) plenamente até 2032 e avançar em monitoramento ambiental.

Precisamos entender a rastreabilidade como uma infraestrutura de informação que pode servir para várias finalidades, desde controle sanitário, protocolos de mercado, garantias socioambientais, etc. Se você tem essa infraestrutura de informação, você consegue atrelar várias coisas em cima disso
, resume Fernando Sampaio, colíder da Força-Tarefa de Rastreabilidade e Transparência da Coalizão Brasil.

7 - Fertilizantes

A dependência de importação de fertilizantes segue como uma das principais carências do Brasil, que fica mais exposto a oscilações de preços e desabastecimento em situações como a atual, de guerras e conflitos em regiões produtoras. Implementar o Profert e dar tração ao Plano Nacional de Fertilizantes para reduzir o déficit interno podem ser alternativas pontuais do próximo governo.

O setor de fertilizantes e o produto em si sempre foram tratados numa ótica de commodity, mas estamos vendo o mundo considerá-lo um insumo estratégico de soberania que toca não apenas no agro, mas também na transição energética
, afirma o diretor executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), Bernardo Silva.

8 - Logística

A falta de infraestrutura para armazenar a produção e os gargalos no transporte estão entre os desafios logísticos do agronegócio brasileiro. Com capacidade insuficiente para estocar a safra, muitos produtores precisam vender os grãos logo após a colheita, quando a oferta é maior, o que reduz a margem para escolher o melhor momento de comercialização.

Precisamos que o próximo presidente olhe a logística e monte um plano, senão o agro brasileiro vai travar, não por falta de mercado lá fora, mas por falta de capacidade de escoar
, defende o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antonio da Luz.

9 - Bioinsumos

O mercado de bioinsumos alcançou R$ 6,2 bilhões em valor de mercado em 2025, crescimento de 15% em relação ao ano anterior. Porém, a demora na regulamentação da Lei de Bioinsumos (15.070/2024) tem gerado insegurança jurídica no setor. Empresas cogitam reduzir investimentos na área, e a Associação Brasileira de Bioinsumos (Abbins) anunciou em outubro o encerramento das atividades.

Mais do que regulamentar um mercado em expansão, o Brasil tem agora a oportunidade de construir as bases para consolidar sua liderança global em bioinsumos, combinando ciência, inovação, segurança jurídica e a realidade da agricultura tropical
, informou a CropLife Brasil, entidade que representa a indústria do setor, em posicionamento encaminhado ao governo federal.

10 - Agregação de valor

O acordo entre Mercosul e União Europeia também coloca em pauta o desafio de diversificar as exportações do agronegócio brasileiro e reduzir a concentração em produtos vendidos como commodities. A aproximação entre os dois blocos pode favorecer esse movimento.

O acordo pode abrir oportunidades para o Brasil desenvolver produtos agropecuários de maior valor agregado, com mais diversificação, processamento e denominações de origem. A experiência europeia nesse segmento também pode favorecer parcerias de investimento e joint ventures
, afirma o professor Marcos Jank, do Insper Global.