Agronegócio

É possível criar camarão longe do mar? Pesquisa tenta realizar cultivo no interior de São Paulo

Autor: Por Eliane Silva — Ribeirão Preto (SP) Publicado em: Fonte: Globo Rural
É possível criar camarão longe do mar? Pesquisa tenta realizar cultivo no interior de São Paulo
Foto: Camanor/Divulgação

É possível criar camarão marinho com rentabilidade em São Paulo em tanques longe do mar? O zootecnista e criador de camarão Fábio Sussel quer provar que sim. Há quatro anos, ele comanda uma pesquisa em situação real de cultivo em Jaguariúna, no interior paulista, que fica a cerca de 200 km do litoral.

O estudo de viabilidade técnica e econômica da criação do camarão marinho longe do mar é uma PPP (Parceria Público Privada entre o Instituto de Pesca (IP) e a Eden Farm, empresa que distribui camarão premium em São Paulo. A pesquisa tem apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola (Fundag).

Pesquisador do IP, Sussel diz que o problema não é reproduzir a salinidade da água marinha. A água salinizada artificialmente usada nos sete tanques de cultivo distribuídos em duas estufas fechadas na fazenda em Jaguariúna imita o balanço iônico dos seis sais da água do mar, mas, devido ao custo, a água nunca foi trocada - é tratada biologicamente por filtragem.

Ainda não encontrei o equilíbrio na criação. O desafio é a Síndrome da Nim, ou mionecrose infecciosa, causada por um vírus. Crustáceos não desenvolvem memória imune adaptativa e não existe vacina para camarões como há para tilápias ou salmão.

Fábio Russel realiza pesquisa para criação de camarão marinho no interior de SP

Divulgação

O pesquisador diz que houve ciclos em que a doença não se manifestou e outros em que as perdas passaram de 80%. O vírus está presente na água marinha e vem com as pós-larvas compradas da Aquatec, no Rio Grande do Norte.

O problema é a multiplicação dos vírus na água. Tem que cuidar da água, usar probiótico na água e na ração, imunoestimulante, cuidar dos aspectos nutricionais. O segredo é achar o equilíbrio entre o patógeno e o hospedeiro. Sou resiliente na busca pelo pacote tecnológico certo. Enquanto isso, entrego pesquisa.

Para ser viável financeiramente, a criação nos viveiros exige uma concentração alta de camarões nos tanques, o que traz mais riscos de perdas pela Síndrome da Nim. Em sua pesquisa, Sussel coloca 500 camarões por metro quadrado nos tanques de 100 metros cúbicos, enquanto a densidade nas criações em viveiro escavado no Nordeste fica entre 10 e 15 por m².

Sussel diz que a criação de camarão, ou carcinicultura, pode ser muito rentável, mas é uma das atividades mais desafiadoras porque o comportamento do crustáceo é bem instável, com alterações de 30% a 40% de produtividade de um ciclo para o outro.

O produtor tem que ter atração pelo abismo porque, quando a doença se manifesta, deixa 24% de sobrevivência, o que não paga os custos. Sem a doença, dá 80% de sobrevivência e um bom lucro.

Inicialmente, os camarões saíam dos viveiros da pesquisa após ciclo de 200 dias com 17 gramas para abate e venda ao consumidor final. Atualmente, o crustáceo é vendido como isca viva de 5 a 6 gramas para o mercado da pesca esportiva do robalo, que é mais rentável e exige um ciclo de produção de apenas 100 dias.

A insistência do pesquisador na criação do camarão marinho se explica pela baixa produtividade do crustáceo de água doce.

A espécie de água doce é territorialista. Os machos brigam e se matam. Já os camarões marinhos são gregários, vivem de forma comunitária.

Eventos

Para amortizar os custos, Sussel passou a fazer eventos técnicos gastronômicos e treinamentos corporativos na fazenda. Nos eventos, ensina o abate técnico humanitário do camarão com água muito fria, mostra como limpar e fazer preparos simples e oferece degustação. Segundo ele, camarão não fede como a maioria das pessoas pensa. O que dá o mau cheiro é a proliferação de bactérias no caso de má conservação do crustáceo.

O que dá o diferencial de sabor e textura do camarão é o abate e a conservação. Camarão congelado inteiro do jeito e no momento certo guarda o frescor por dois anos. Já o camarão comprado fresco direto do pescador morre em uma temperatura de 30 graus, sem gelo, sem cuidado. Congelar camarão de má qualidade produz camarão de má qualidade congelado. Quando a cadeia do frio é bem feita, o camarão é adocicado, muito saboroso, com textura mais agradável. Se falha, vem o amargor.

Nordeste

A maior parte do cultivo de camarão na Região Nordeste, que concentra 99,7% da produção brasileira, já acontece a pelo menos 100 km do mar, aproveitando águas salobras, segundo Sussel, que estuda o tema há mais de 20 anos.

A salinidade média dos oceanos é 35 per mil, mas o camarão marinho não precisa disso tudo. Ele pode ser criado com salinidade de 0,5 per mil. No Nordeste, tem água salobra que não serve para nada, mas para a carcinicultura é ótima.

O Brasil produz 260 mil toneladas anuais de camarão, segundo dados da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC). Da pesca extrativa, saem mais 60 mil toneladas anuais, pelos dados do IP.

Produção de camarão da Camanor em tanques fechados sistema intensivo

Camanor/Divulgação

A Camanor, fundada pelo suíço Werner Jost há 44 anos, é uma das grandes empresas de camarão no Rio Grande do Norte, Estado que ocupa o segundo lugar no ranking da produção nacional, com cerca de 21%, atrás do Ceará, que tem 57%. Na produção em 119 hectares na unidade pioneira de Canguaretama, a empresa capta água em estuários onde há mistura de água do rio e do mar. Na fazenda em Guamaré (RN), de 140 hectares, usa água totalmente salgada.

Segundo a diretora de produção e sócia Marisa Sonehara, a empresa faz todo o ciclo, desde a reprodução no laboratório, larvicultura, produção de ração, engorda até o beneficiamento do camarão para distribuição nacional. Em 2011, a produção na Camanor, que chegou nos bons tempos a 6.000 toneladas anuais, sofreu uma queda violenta com a chegada do vírus mancha branca, que entrou no Brasil em 2002, inicialmente em Santa Catarina, mas depois avançou para Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Naquele ano, a média de sobrevivência nos tanques caiu de 80% para 10%
, diz Marisa.

Fazenda de produção de camarão da Camanor em Guamaré (RN)

Camanor/Divulgação

Outro impacto veio em 2018, quando a Europa suspendeu as importações de todos os pescados brasileiros. A Camanor, que tinha sua produção voltada para a exportação ao bloco, chegava a enviar 22 mil contêineres de camarão inteiro com casca por mês para a Europa.

Após a suspensão, a empresa reduziu drasticamente sua área de produção de mais de 600 hectares para 250 hectares e produz atualmente apenas 1.700 toneladas anuais, tudo para o mercado interno. Marisa explica que a Camanor não tem interesse em exportar para outros mercados como os Estados Unidos, que só compram a cauda do camarão, porque Equador, Índia e Arábia Saudita oferecem o produto com preço bem mais acessível que o brasileiro.

Segundo Marisa, falta uma genética mais robusta para o avanço do setor no país, que importa as matrizes, e o produtor ainda está sendo desafiado pelo aumento nos últimos anos dos custos de todos os insumos e da logística.

O ideal seria ter uma rentabilidade de 40%, mas estamos com apenas 10% a 15% e, às vezes, só empatamos.

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