Agronegócio

E se as abelhas desaparecessem? Entenda o que aconteceria com o planeta

Autor: Por Mariana Letizio — São Paulo Publicado em: Fonte: Globo Rural
E se as abelhas desaparecessem? Entenda o que aconteceria com o planeta
Foto: Canva/Creative Commons

Caso as abelhas desaparecessem do planeta, o cenário seria de caos para o meio ambiente e para a vida humana. É assim que o pesquisador Marcos Jacob, que atua na transferência de tecnologia da Embrapa Meio-Norte, resume o impacto que a extinção desses insetos teria sobre a produção de alimentos e o equilíbrio ambiental.

Apesar de parecer um cenário extremo, quase uma sinopse de filme de ficção científica, o risco é real e está relacionado ao papel das abelhas na polinização. Ao transportar o pólen entre as flores, esses insetos estabelecem relações específicas com diferentes espécies de plantas e ajudam a garantir sua reprodução.

Segundo Jacob, porém, os sinais desse problema já aparecem antes de uma eventual extinção.

Quando pensamos na extinção delas, muitas vezes pensamos apenas no desaparecimento completo. Mas a própria redução populacional já está causando um dano silencioso, isso porque ela afeta a perpetuação de muitas espécies nativas que dependem dessas abelhas
, explica Jacob.

Com isso, a redução do número de colônias também diminui a capacidade que a natureza tem de se regenerar
, acrescenta.

Em uma escala maior, a perda desses polinizadores afetaria também a oferta de alimentos, já que nenhuma outra espécie consegue substituir integralmente o papel desempenhado pelas abelhas.

Papel insubstituível

Marcos Jacob explica que manter a diversidade das abelhas é importante porque cada espécie estabelece relações específicas com determinadas plantas. Por isso, ao contrário do que muitos acreditam, a presença de uma abelha em uma flor não significa necessariamente que ela esteja realizando a polinização.

É importante dizer que o fato de uma abelha frequentar uma flor para retirar néctar ou pólen não significa necessariamente que ela esteja polinizando. Significa que está extraindo apenas seu alimento
, explica

Essa relação também depende da anatomia de cada espécie. Dependendo de suas características, a abelha pode não conseguir alcançar o pólen em determinadas estruturas da flor e transportá-lo até outra planta. É o que ocorre, por exemplo, com a Apis, que não consegue alcançar o pólen localizado na ponta de estruturas muito finas de algumas flores.

Essa relação entre insetos e plantas é resultado de milhões de anos de evolução. Por isso, não existe uma espécie capaz de simplesmente assumir o papel de todas as outras. Formigas, mariposas, morcegos e borboletas também atuam como polinizadores, mas, segundo Jacob, nenhum deles substitui integralmente as abelhas.

As ameaças à vida das abelhas

Apesar do papel que exercem no meio ambiente e na produção de alimentos, as abelhas enfrentam ameaças como a perda de habitat, a exposição a venenos e as mudanças climáticas.

O aquecimento global interfere na época e na intensidade da floração das plantas e altera a oferta de néctar e pólen, reduzindo a disponibilidade de alimento para as colônias. O excesso de chuva também pode prejudicar esse processo ao "lavar" o pólen e o néctar, diluir o açúcar presente no néctar e dificultar o voo dos insetos durante os períodos chuvosos.

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Você pode matar um ser vivo diretamente, mas pode matar um ser vivo tirando o alimento dele
, afirma Jacob. Quando a floresta deixa de oferecer recursos suficientes às colônias, também diminui a quantidade de enxames que consegue sustentar.

As ações humanas também pressionam as populações de abelhas. Jacob cita o uso de agrotóxicos e destaca que, embora muitos produtores adotem boas práticas, regiões submetidas a pulverizações em escala, principalmente aéreas, registram redução no número de insetos, especialmente abelhas.

Outro ponto de atenção é o desmatamento seletivo, quando determinadas árvores são retiradas para a venda de madeira ou para lenha enquanto a área continua aparentemente verde. A dificuldade, explica Jacob, é que imagens de satélite conseguem identificar a perda de uma floresta inteira, mas não necessariamente a retirada de espécies específicas dentro de uma área que permanece coberta por vegetação.

Essa prática também afeta as abelhas. Árvores de troncos mais grossos estão entre as que florescem durante o período seco, e muitas possuem ocos que servem de abrigo para os insetos. Ao retirá-las, o desmatamento reduz tanto a oferta de alimento quanto os locais disponíveis para a formação de colônias.

Uma alternativa à conservação

Nem tudo é notícia ruim. Trabalhamos com esse cenário catastrófico, mas, ao mesmo tempo, enquanto Embrapa, temos que trabalhar com soluções tecnológicas, buscando pelo menos minimizar esses efeitos ou fazer com que eles aconteçam mais lentamente, até que consigamos uma solução plena

Uma das estratégias, segundo o pesquisador, é transformar a criação de abelhas em uma atividade economicamente viável. Na apicultura, baseada principalmente na Apis, os produtores obtêm produtos como mel, pólen e própolis. A espécie, porém, é exótica e não está adaptada a todas as relações estabelecidas entre as plantas e as abelhas nativas.

Abelha apis é uma variedade com ferrão

Canva/ Creative Commoms

A Apis já está naturalizada no Brasil. Com isso, uma das alternativas é buscar formas de conciliar a atividade econômica com a conservação, por meio de zoneamentos em áreas de preservação e faixas de controle que permitam capturar colônias e transferi-las para locais seguros, reduzindo conflitos com espécies nativas.

Já a meliponicultura, voltada às abelhas sem ferrão, atua diretamente na conservação de espécies nativas. Em Bela Vista do Piauí, por exemplo, meliponicultores criam uma abelha conhecida como "mansa", com cerca de 1.500 colônias e 60 sócios.

Além de produzir mel, a iniciativa oferece abrigo para abelhas que perderam parte de seus locais naturais de moradia na Caatinga. Mantidas em caixas e distribuídas pela região, as colônias continuam contribuindo para a polinização das lavouras e da vegetação nativa.

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O desafio, agora, é fazer com que esse trabalho também se sustente financeiramente. As abelhas sem ferrão são menores, formam enxames menores e produzem menos mel do que as Apis. Embora o produto tenha maior valor, a renda gerada pode não ser suficiente para manter os produtores na atividade.

Por isso, Jacob defende o pagamento por serviços ambientais como uma alternativa para remunerar os criadores pelo trabalho de conservação. Além da produção, essas pessoas ajudam a manter espécies nativas e a polinização da vegetação.