Futuro do cacau passa por inovação, planejamento e sustentabilidade
No início do século XX, o Brasil liderou a produção mundial de cacau. Ocupou o primeiro lugar por 19 anos, e permaneceu na segunda posição até o fim da década de 1980. Atualmente, ocupa a sétima colocação, atrás de Costa do Marfim, Indonésia, Gana, Equador, Nigéria e Camarões. O país tem condições de retomar espaço de destaque no cenário global, com tecnologia, inovação, análise de dados e apoio aos produtores em busca de maior produtividade, inclusive para além dos principais centros de plantio: o Pará e a Bahia.
Esse avanço depende de ganhos de produtividade e do acesso dos produtores à informação e à tecnologia. A ExpoCacau conecta essa demanda a soluções, empresas e oportunidades de negócio. A segunda edição da maior feira agrícola e de negócios do setor reuniu, este ano, mais de 7 mil participantes de todo o Brasil e representantes de 11 países, em uma área 25% maior que a de 2025.
Durante o evento, a Nestlé Brasil transformou seu estande no Centro de Convenções de Ilhéus, na Bahia, em um estúdio de podcast ao vivo. Ao longo dos três dias, o espaço recebeu produtores rurais, agrônomos, técnicos, pesquisadores e lideranças do setor para uma série de entrevistas. A iniciativa resultou em 14 programas e mais de nove horas da série "Do Cacau ao Futuro", criada para levar o conteúdo dessas conversas aos produtores que não tiveram a oportunidade de acompanhar o evento presencialmente.
Os episódios abordaram temas como agricultura regenerativa, inovação no manejo, adaptação climática, inclusão de jovens e mulheres no campo e rentabilidade na cacauicultura.
O Brasil almeja voltar a ser exportador. Para isso, precisa também voltar a atender a toda a demanda interna, afirma Igor Mota, gerente de Agricultura para Cacau da Nestlé Brasil.
A produtividade é o principal ponto de atenção: se dobrarmos a produtividade atual média, que é de 450 quilos por hectare plantado, já alcançaremos um novo posicionamento de mercado.
Todos os episódios da série estão disponíveis na íntegra no canal da Nestlé do Brasil no YouTube.
Tecnologia e inovação
Fazer com que informações e tecnologias cheguem a produtores de diferentes regiões e perfis é um dos desafios da cadeia.
Temos no país mais de 93 mil produtores de cacau. Um dos grandes desafios é acessar cada um deles, onde quer que esteja, com informações e tecnologias alinhadas à sua realidade e às suas necessidades, afirmou Thiago Santos, diretor de Originação e Sustentabilidade da Barry Callebaut Brasil, no episódio Desafios e Oportunidades na Cadeia do Cacau.
Orientar o produtor é fundamental, como argumentou José Olímpio de Souza Júnior, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), no episódio Solos e Nutrição do Cacaueiro.
Um bom solo não é só aquele que tem atributos químicos bons; ele também precisa ter atributos físicos bons. Com o manejo adequado, é possível expandir a produção para novos territórios.
A gestão de recursos foi o mote do debate Manejo de Irrigação na Cacauicultura, com Igor Lapa, consultor agronômico da multinacional israelense Netafim.
Um projeto de irrigação bem manejado pode gerar redução de custo de energia e de água na ordem de 30% e 50%, respectivamente. Também conseguimos gerar economia no uso de fertilizante na casa de 20% a 30%, informou.
Já a busca por melhores resultados econômicos se conecta à sustentabilidade, tema recorrente nas conversas do podcast. Luis Collaço, gerente de ESG da Nestlé Brasil e participante de três episódios, destacou essa relação.
Para o produtor ser verde em termos ambientais, ele também precisa ser verde em relação às finanças, afirmou.
No episódio Cacauicultura Regenerativa, Ciência e Inteligência Artificial, Mayara Franzin, gerente de Agricultura Sustentável da Nestlé Brasil, lembrou que o cacau é regenerativo por natureza, enquanto Bruno Chebe, diretor-executivo da Cargill, ressaltou que,
quanto antes o produtor abraçar a agenda de sustentabilidade, mais rápido vai colher os resultados, durante o bate-papo de Produtividade, Rentabilidade e Sustentabilidade: O Tripé da Nova Cacauicultura.
Novos territórios
A expansão da cultura do cacau para outras regiões foi debatida ao longo de todo o evento -- com reflexos diretos no conteúdo do podcast. No episódio Cacau Além do Mapa: O Futuro em Novas Regiões, Victor Maia, professor da Unimontes e coordenador do Centro Tecnológico para Cacauicultura em Regiões Não Tradicionais (CTC-RNT), afirmou que a produção pode ser adaptada a diferentes condições regionais.
O produtor que busca as tecnologias mais adequadas para cada região pode alcançar altos níveis de produtividade, disse.
Lembrando que, ainda que seja comercializado como commodity, o cacau é um fruto que pode aprender com as lições proporcionadas por outros plantios, como a cafeicultura, que evoluiu muito nas últimas décadas.
O desempenho da propriedade também ganhou espaço nas discussões. No debate sobre Gestão na Cacauicultura, foram apresentadas práticas para melhorar a produtividade, a rentabilidade e a sustentabilidade dos negócios. Entre elas está o projeto "Mais Inteligência, Mais Cacau", criado pela Nestlé Brasil em parceria com a consultoria Labor Rural.
A ação teve início em 2023, com 110 produtores de todo o Brasil, e tem como meta aumentar em 20% a produtividade e em 30% a rentabilidade no prazo de três anos.
O que segura o agricultor no campo é a produtividade, a rentabilidade, que em muitos casos pode melhorar a partir do momento em que ele entender que sua terra é um negócio, é uma empresa rural, e que é importante pensar em planejamento, disse Josias Amaral, head de Agricultura da Labor Rural.
Em uma discussão complementar a esse tema, o episódio Manejo do Cacaueiro para Obtenção de Alta Produtividade contou com Silvino Kruschewsky, engenheiro agrônomo e fundador da SKAgro Consultoria, para explorar os aspectos que sustentam uma cacauicultura de alta performance, desde a escolha do material genético e o manejo da lavoura até as inovações e as tecnologias que estão redefinindo o setor.
Existem fatores cruciais para garantir o sucesso e a rentabilidade da produção: água, solo, luminosidade e a idade das plantas. O importante é pensar neles em conjunto, disse.
Estúdio de podcast ao vivo da Nestlé Brasil na ExpoCacau
Divulgação
Exemplos de sucesso
Durante o evento, Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, apresentou um estudo recente que compara resultados do plantio em novas áreas da Amazônia.
No espaço que mapeamos, 96% do nosso cacau está apto a ser exportado para a comunidade europeia, apontou durante o papo sobre Cacau do Futuro: Ciência, Sustentabilidade e Bioeconomia para Gerar Valor no Campo.
A produção e o desenvolvimento de mudas jovens e avançadas geneticamente também ganharam espaço na programação. Entre os exemplos de sucesso estão o Viveiro Diva, debatido no episódio Da Dor do Produtor ao Viveiro Diva: Como Nasceu um Novo Jeito de Produzir Mudas, e a propriedade Vila Opa, apresentada em Vila Opa: Sustentabilidade em Seis Dimensões.
Um dos principais fundamentos estruturais da cadeia de cacau do mundo é a juventude das plantas. A renovação tem que estar nas conversas do café da manhã, do almoço e do jantar da indústria e dos produtores, disse Roberto Lessa, idealizador e cofundador da fazenda.
Há espaço para o mercado crescer, como apontou Jaime Recena, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab), no capítulo O Papel da Abicab no Desenvolvimento do Setor do Cacau no Brasil.
Quando eu era pequeno, havia não mais do que 10 produtos. Agora, registramos na Páscoa de 2026 mais de 800 opções diferentes.
Iniciativas de apoio
No episódio Transformando a Cacauicultura: Investimentos da Nestlé em Produtores, Inovação e Agricultura Regenerativa, foram apresentados projetos da companhia nessas áreas e na descarbonização da cadeia de valor.
Temos um compromisso climático muito forte. Nosso grande guarda-chuva é o Net Zero, que nos leva a contribuir para outros pilares da cadeia, informou Marina Pereira, gerente de ESG da Nestlé Brasil.
Segundo Carlos Soares, diretor de Agricultura da Nestlé Brasil, as fazendas que contam com assistência técnica da companhia apresentam ganhos de 20% em produtividade e mais de 40% em rentabilidade.
Desenvolvemos o Theo, um chatbot que conversa com o produtor e apresenta orientações para suas dúvidas, explica.
A companhia também conduz o Nestlé Cocoa Plan, o maior programa de sustentabilidade para cacau no Brasil. E é uma das investidoras e apoiadoras da CocoaAction Brasil, iniciativa multissetorial coordenada pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC). A ação foi tema do painel CocoaAction: Colaboração que Transforma o Cacau Sustentável.
Há oito anos, desenvolvemos essa coalizão que busca implementar uma agenda ampla e voltada para o tema da produtividade, para resgatar a renda do produtor, descreveu Pedro Ronca, diretor da P&A Consulting e responsável pelo CocoaAction Brasil.
Nesse sentido, a ExpoCacau 2026 contribui com insights qualificados, avaliou ele.
Apesar de um último ano desafiador, a feira cresceu de um ano para o outro, em espaço, número de expositores e público. Sinal de que o ecossistema produtor de cacau busca informações e entende que precisa avançar.