Agronegócio

Horta comunitária garante alimento para famílias na Zona Leste de São Paulo

Autor: Por Cleyton Vilarino — São Paulo Publicado em: Fonte: Globo Rural
Horta comunitária garante alimento para famílias na Zona Leste de São Paulo
Foto: Arquivo Pessoal

Um terreno que antes era usado para descarte irregular de lixo e entulho, hoje alimenta pelo menos 70 famílias graças ao trabalho de uma moradora que apostou na agroecologia como ferramenta para educação ambiental. Natural do Ceará, Maria Edilene mudou para o bairro do Jardim Lapena, na Zona Leste de São Paulo, ainda em 2006, quando estava prestes a completar 18 anos.

Nós, no Ceará, temos muito esse muito cuidado, porque nossos quintais são produtivos. Quando você se depara, dentro da comunidade, com lixo, falta de oportunidade, coleta errada, você se desespera
, observa a ativista.

Inconformada, em 2014 ela iniciou o plantio de chá numa área de propriedade de Transpetro, ainda sem autorização da empresa.

Em 2020, a Transpetro veio, removeu tudo para fazer manutenção no duto da Petrobras, mas eu guardei as mudas e, quando viraram as costas, eu plantei de novo
, recorda.

"É um trabalho muito amplo, não é só uma agricultura comum, é uma agricultura além do que a gente já imaginava

Foram pelo menos três remoções até obter a autorização definitiva para o plantio, dada no ano passado.

Foi uma luta travada à base de muita resistência, mas com muita persistência, educação, sem violência e muito diálogo
, afirma.

O sucesso da inciativa a motivou a ampliar a horta para sete escolas da região, retomando canteiros abandonados e implementando novos. Com mais hortas, logo ela sentiu falta de um insumo básico para o cultivo de verduras e legumes: adubo. A saída foi iniciar um segundo projeto, de compostagem, a partir dos resíduos gerados pela própria comunidade.

Com o apoio de parceiros, entre eles agentes comunitários de saúde, Edilene já conseguiu distribuir uma centena de pequenos baldes para a coleta de restos de alimentos para produção de composto orgânico. A solução para nutrição vegetal, contudo, evidenciou a desnutrição humana.

Apoio de Agentes Comunitários de Saúde foi decisivo para ampliar participação da comunidade na horta do Jardim Lapena

Arquivo Pessoal

A gente começou a notar a falta de nutrientes, a falta de legumes, de casca de fruta. Teve duas famílias que foram diagnosticadas em situação de vulnerabilidade pelo balde
, recorda Edilene. A saída foi trazer essas famílias para junto da horta, ampliando a participação da comunidade.

Hoje, ela e outras mulheres do Jardim Lapena formam um coletivo, o Coletivo das Marias, com atuação não só com a horta comunitária, mas também com reciclagem e atuação social junto aos catadores.

Eu não sabia a dimensão do que a gente estava fazendo quando começou esse trabalho, porque ele se tornou uma estação ambiental
, afirma.

Ao todo, são mais de 70 famílias participantes da horta, gerando cerca de 58 toneladas de composto orgânico todos os anos e alimento suficiente para garantir a segurança alimentar de pelo menos dez delas. Ao entregar o balde com restos de alimentos, elas recebem de volta cestas com frutas, verduras e legumes. Nos casos mais graves, de maior vulnerabilidade, também são entregues peixes e ovos.

A produção de proteína animal é a mais nova iniciativa dos moradores do Jardim Lapena, iniciada no último ano a partir da criação de peixes em caixas d'água e, mais recentemente, codornas. A produção, somando frutas, verduras, legumes e proteína animal chega a 600 quilos por mês. . O projeto teve apoio do Programa Nova Economia e Desenvolvimento Territorial da Fundação Tide Setubal, entidade parceira do Coletivo desde 2022.

Visão de uma das hortas com canteiros, hidroponia e caixa d'água com criação de peixes

Arquivo Pessoal

A coordenadora do Programa, Kenia Cardoso, destaca dados do IBGE divulgados em 2024 apontando que 9,9% da população negra vivia em insegurança alimentar moderada ou grave, mais que o dobro do registrado entre a população não negra (4,6%).

Dado que 72,9% da população periférica no Brasil é negra, há, necessariamente, um fator territorial no tema da produção e consumo de alimentos no Brasil
, afirma.

Para Edilene, o trabalho está apenas no começo. O plano, afirma, era conseguir atender pelo menos 300 famílias da comunidade com as cestas de alimentos.

É um projeto de voluntariado e isso me impede a chegar a mais famílias como eu queria
, lamenta. Mesmo assim, ao considerar os resultados já alcançados, ela considera o Coletivo e a horta como uma escola, onde todo mundo aprende e ensina ao mesmo tempo.

É um trabalho muito amplo, não é só uma agricultura comum, eu digo que é uma agricultura além do que a gente já imaginava
, completa Edilene.