Indústria de aves e suínos prevê alta de custos com milho e fim da 6x1
A indústria de aves e suínos prevê aumentos de custos de produção e dos preços de carnes para os próximos meses. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, relaciona a situação à expectativa de alta do milho e ao fim da escala 6x1.
Vai ter um impacto no preço do frango e no suíno. Será um repasse necessário para a manutenção da produção. E cada empresa tem o seu jeito e o quanto vai colocar no preço final, afirmou Santin, no domingo (18/10), em entrevista durante o Sial Paris, na capital francesa.
O milho responde por quase 70% do custo com a ração dos planteis nas granjas. Na sexta-feira (16/10), o indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) foi de R$ 64,85 a saca de 60 quilos.
Na B3, o cereal para novembro fechou acima, a R$ 66,63, e os contratos para 2027 apontam valores na casa dos R$ 70 a saca. Na bolsa de Chicago, dezembro fechou em US$ 4,74 por bushel na sexta, e os vencimentos seguintes indicam valores acima dos US$ 4,80 e até dos US$ 4,90 por bushel.
O milho está sendo precificado um pouco mais caro. Não é nada absurdo, mas já tem uma precificação para o ano que vem que vai impactar no preço final do produto, explicou.
Fim da escala 6x1
O fim da escala 6x1 deve provocar uma redução de pelo menos 5% na carga horária instalada nas indústrias de aves e suínos, disse Santin. Ele destacou que, atualmente, as plantas frigoríficas empregam cerca de 500 mil pessoas e ainda há algo em torno de 20 mil vagas em aberto no setor.
A indústria vai ter que contratar 5% a mais de mão de obra. Se eu já tenho 20 mil vagas em aberto que eu não consigo preencher, não consigo contratar, pontuou.
O presidente da ABPA ressaltou que cada empresa terá a sua estratégia para lidar com a nova escala de trabalho. Mas, na falta de mão de obra, a saída será adequar a produção ao tempo de jornada, com possibilidade de aperto da oferta no mercado e na rentabilidade das indústrias.
Não vai ter falta de produto. Mas vai ter aumento de custo e de preço. A ordem é não baixar salário, mas preciso pagar um custo fixo, que agora aumenta em 5% naquela parcela de colaboração que a mão de obra tem no custo final, disse.
A proposta de emenda constitucional que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 foi promulgada na sexta-feira (16/10). A jornada máxima foi reduzida de 44 para 42 horas semanais, com cinco dias de trabalho e dois de folga (um deles, preferencialmente, aos domingos). O prazo dessa mudança é de dois meses. Após um ano, cairá para 40 horas semanais sem redução de salário.
Ricardo Santin disse considerar curto o prazo inicial de adaptação à nova escala, que termina em 15 de dezembro. Mencionou que os pintinhos dos ovos postos agora nascerão entre 18 e 21 dias. Considerando o ciclo dos frangos, será difícil abater e processar o volume previsto.
No dia 15 de dezembro, tenho que ter 5% menos de força de trabalho. Se todo dia chegam 25 milhões de cabeças, eu tenho que reduzir capacidade e não tenho gente para repor, tenho que fazer outra coisa, porque tenho responsabilidade social e de bem-estar animal, disse.
O presidente da ABPA acrescentou que pretende conversar nos próximos dias com o ministro da Agricultura, André de Paula, sobre questões específicas, como a cadeia de suínos, que tem um ciclo mais alongado que a dos frangos de corte.
Fizemos investimentos altíssimos para não parar. Eu não estou contra a medida. Só estou dizendo que precisa de uma adaptação maior. Vou conversar com o ministro, levar o problema ao governo que apoiou isso internamente para tentar ajudar na construção, disse.
Apesar das preocupações com o custo de produção, Santin disse que não mudou a expectativa de crescimento da produção em comparação com o ano passado. Não havendo o que chamou de "intercorrência sanitária", a indústria deve ter aumento nos segmentos de frango, suínos e ovos.
*O jornalista viajou a convite da Apex Brasil