Instituto Mauá testa uso de etanol em motores a diesel
O Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) está desenvolvendo uma pesquisa, em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que testa o uso de etanol em um motor originalmente projetado para trabalhar com óleo diesel. O foco do trabalho é em veículos pesados, máquinas agrícolas e equipamentos que operam fora da estrada.
Quatro empresas estão financiando os estudos e terão direito ao uso da patente. Uma delas é a Tupy, multinacional brasileira do setor de metalurgia que desenvolve componentes para transporte, infraestrutura, geração de energia e para o agronegócio. O IMT não revelou o nome das outras três.
Os pesquisadores retomaram testes feitos no passado que não deram certo e estão agora trabalhando em novas adaptações nos motores. O objetivo é avaliar em quais aplicações o etanol já pode substituir o diesel diretamente, sem comprometer o desempenho do motor.
Em ensaios realizados até o momento, tanto o uso de diesel e como o de etanol hidratado resultaram em níveis equivalentes de torque e potência, sem a necessidade de mudanças estruturais significativas. Segundo Mario Eduardo Santos Martins, coordenador do Grupo de Pesquisa em Motores, Combustíveis e Emissões (GPMOT) da UFSM, os resultados até agora
validam o conceito de um motor a etanol para o transporte pesado.
Leia também
Grunner investe R$ 19,5 milhões e lança máquinas com motores a etanol e biometano
Copersucar acerta primeira venda de etanol para navios
Um resultado que surpreendeu positivamente os pesquisadores foi de caráter ambiental. Com uso de etanol, os motores não emitem fumaça e não fazem barulho, disse Clayton Zabeu, professor de engenharia mecânica da Mauá.
Hoje, um ônibus exige um sistema de pós-tratamento de fumaça que é muito caro, observou. Para ele, o estudo pode levar ao desenvolvimento de tratores menos poluentes e mais silenciosos.
Os primeiros testes da Mauá de uso do álcool em motores a diesel começaram em 1978, quando o instituto recebeu uma encomenda da Companhia Energética de São Paulo (CESP), que gerava energia elétrica em São Paulo, sobre o possível uso de metanol em tratores e caminhões.
Na época, os professores do IMT Franco Brunetti e Alfredo Gunter Domschcke, já falecidos, tiveram a ideia de converter o motor à diesel para uso com etanol.
O conceito deles era usar uma vela aquecedora para usar na partida a frio, conta Zabeu. Ao invés de usar a vela apenas na ignição, a vela ficaria ligada o tempo todo, e faria o motor responder ao etanol.
Primeiros testes da Mauá de uso do álcool em motores a diesel começaram em 1978
Divulgação/Instituto Mauá de Tecnologia
Porém, os testes da época mostraram que a vela usada era pouco resistente e pifava após cerca de mil horas. Outro problema era a corrosão dos materiais usados na época. Além disso, ainda não existiam sistemas eletrônicos de controle, nem a possibilidade de flexibilizar a dosagem do combustível. "O conceito era interessante, mas não era durável", diz.
Desde então, os pesquisadores do instituto vêm aprimorando o desenvolvimento de uma solução e chegaram a um sistema eletrônico que permite inúmeras injeções, com velas que duram mais de cinco mil horas, e uso de materiais compatíveis com o etanol na bomba injetora.
Conseguimos revisitar o conceito para trator e caminhão, que reúne o melhor do motor de ignição a diesel com uma resposta rápida e torque alto usando etanol, explica Zabeu.
Neste momento, a pesquisa está realizando testes virtuais de motor no dinamômetro, instrumento de medição de tração e potência. Antigamente, testes com dinamômetro eram realizados no ambiente físico, levando muito mais tempo e gastando mais combustível. Agora, diz Zabeu, em ambiente virtual, a redução de custos permite que o experimento avance.
As metas desta etapa consistem em garantir que o etanol atinja a eficiência do diesel e que permita que o veículo apresente a mesma resposta de torque e potência.
Se nossas estimativas forem atingidas, ao finalizar esses testes, teremos o motor no final deste ano em banco de prova, afirma ele.