Juros e crédito lideram preocupações do setor agropecuário
As taxas de juros elevadas e a dificuldade de acesso a crédito ficaram no centro das preocupações de executivos dos mais diversos segmentos do setor, além de agricultores e lideranças presentes ontem no evento "Vozes do Agro", realizado pela Globo Rural e pelo Valor Econômico. Para participantes de diversas mesas, a saída passa por um ajuste fiscal, além de políticas direcionadas e um melhor planejamento das fazendas.
Entre representantes do setor de máquinas agrícolas, um dos que mais vêm sendo afetados pela crise de acesso a crédito e taxas de juros, a percepção é de que o agro vive uma "tempestade mais que perfeita", já que à dificuldade de financiamento somam-se os baixos preços das commodities. Eles lembraram, por exemplo, que o setor já viveu momentos difíceis no passado, mas com taxas de juros menores.
Um ponto que alguns fornecedores do agronegócio reclamaram é o da "banalização" da recuperação judicial. Para um executivo do ramo de insumos, nem sempre o recurso é usado por quem precisa, o que ajuda a tornar o crédito mais caro e restrito.
Para dar uma saída ao problema, os executivos e produtores defenderam um ajuste fiscal, mas também soluções segmentadas, como o fortalecimento do seguro rural. Eles defenderam que a expansão do seguro rural permitiria reduzir os custos com a ferramenta e a mitigar os riscos de crédito, diminuindo seu custo.
Leia também
Escassez de fósforo no Brasil é grave e ainda pouco dimensionada, diz executivo
Agro quer redução de juros e ministro 'conectado' com o setor
Para um dirigente da área de crédito, uma possibilidade é direcionar parte do recurso que hoje subsidia os juros do Plano Safra para a subvenção do seguro rural. O subsídio ao crédito está entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões, e do seguro está em torno de R$ 1 bilhão. Um produtor rural, inclusive, defendeu uma revisão do Plano Safra.
O crédito para custeio não deveria existir. O produtor precisa ter condição para custear, pelo menos, a semente e o adubo, disse.
Um executivo do setor de insumos defendeu a possibilidade de o governo apoiar estruturas de financiamento em conjunto com o setor privado, em modelos de "blended finance", em que o governo assumiria mais riscos, para elevar a oferta de crédito ao setor.
Para separar "o joio do trigo", executivos de tecnologia voltada para o agro defenderam mecanismos de "score" de cada produtor, para apoiar o desenvolvimento de soluções financeiras de baixo custo e de fácil adesão.
No âmbito das fazendas, os agricultores precisarão se profissionalizar, segundo um agente financeiro. Isso implica utilizar mais mecanismos de gestão de risco, de preços e melhorar a gestão do negócio.
Em um cenário de extremos climáticos, crédito escasso e juros altos, esse é um fator que está sob o nosso controle, concordou um produtor.
Dentro da gestão de riscos, a agricultura regenerativa é considerada um diferencial, ressaltaram produtores que investem em práticas conservacionistas. Segundo eles, já existe o consenso de que o resultado da agricultura regenerativa é perceptível na sustentabilidade ambiental e financeira. No entanto, esses mesmos produtores avaliam que as políticas existentes hoje, como o Plano ABC, não são suficientes para a demanda e para a ampliação da agricultura regenerativa.
Crédito
O receio de parte dos debatedores é que a crise de crédito comprometa mais os produtores de pequenas propriedades. Para líderes de empresas de tecnologia, bancos e tradings ainda tratam o campo como uma média. "Enquanto o grande aparece, o pequeno fica invisível", disse um executivo da área de tecnologia.
Para esses executivos, ainda faltam políticas públicas mais objetivas que ajudem principalmente os produtores menores a acessarem recursos financeiros para incorporarem tecnologias em suas lavouras.
Insumos e máquinas
Executivos do setor de insumos e produtores também manifestaram preocupação com a possibilidade de falta de fertilizantes para a nova safra. Para um dirigente setorial, há risco real de redução da produção de alimentos e até à segurança alimentar no Brasil, já que o país também abastece o mercado externo.
Executivos de empresas de adubos defenderam o apoio à indústria nacional e a redução da dependência externa, o que passa pelo incentivo à indústria petroquímica para aumentar, por exemplo, a produção nacional de enxofre (para atender a produção de fosfatados). Também defenderam uma política para reduzir o preço do gás natural no país, essencial para os nitrogenados, e que hoje é 10 vezes maior que nos Estados Unidos. O setor também defende a busca por alternativas, como a exploração de rochas nacionais e o uso de fontes limpas, como o biometano.
No segmento de adubos, há também a preocupação com a concorrência crescente com a indústria de veículos elétricos pelo enxofre e com os data centers por energia elétrica. Para um executivo do ramo,
o preço do enxofre pode até cair, mas não vai mais voltar a US$ 100 a tonelada.
O fomento à indústria nacional também é uma reivindicação do setor de máquinas. Executivos do setor demonstraram preocupação com a importação de máquinas chinesas.
Não somos contra a abertura do mercado [para importação], mas temos que ter produção aqui, defendeu um deles.
Segurança jurídica
Outra preocupação dos executivos de diversas áreas é com a falta de segurança regulatória e jurídica. A lentidão para regulamentar marcos legais, como a lei dos bioinsumos, dificulta investimentos, segundo executivos do ramo.
Produtores também criticaram a judicialização de leis já aprovadas, como do licenciamento ambiental, que gera insegurança jurídica. Defenderam, assim, a modernização da lei ambiental para diminuir a judicialização. Muitas vezes, argumentaram os participantes, normas infralegais, que têm força de lei, criam burocracia no licenciamento ambiental no agro.