Na pecuária leiteira, medir é apenas o começo
Durante muito tempo, boa parte das decisões dentro de uma fazenda leiteira esteve apoiada principalmente na experiência e na capacidade de observação do produtor. Esse conhecimento continua indispensável. O que mudou foi a quantidade de informação disponível para complementar esse olhar.
Em propriedades cada vez mais tecnificadas, já é possível acompanhar individualmente aspectos como produção de leite, frequência de ordenha, comportamento, fluxo de leite e indicadores relacionados à saúde dos animais. Na prática, isso significa sair de uma gestão baseada apenas na percepção de que alguma coisa mudou para uma gestão capaz de identificar quando, onde e com qual animal essa mudança começou.
Essa talvez seja uma das transformações mais relevantes proporcionadas pela automação na pecuária leiteira. O ganho não está simplesmente em produzir milhares de dados todos os dias. Está na possibilidade de utilizar essas informações para decidir mais cedo e com maior precisão.
Uma vaca que reduz sua produção repentinamente, por exemplo, não está apenas entregando alguns litros a menos no tanque. A queda pode ser um primeiro sinal de alteração na alimentação, estresse térmico, desconforto, problema de locomoção ou alguma questão sanitária. Quando existe um histórico individual daquele animal, uma pequena mudança de padrão passa a chamar atenção antes mesmo que o problema seja evidente visualmente.
O mesmo raciocínio vale para a frequência de ordenha. Em sistemas automatizados, é possível saber quantas vezes cada animal procura o equipamento e qual é o intervalo entre as visitas. Uma redução nessa frequência pode indicar que aquela vaca está se locomovendo menos, enfrenta alguma dificuldade no ambiente ou simplesmente deixou de apresentar o comportamento esperado para ela.
É nesse ponto que os dados ganham relevância. O número isolado diz pouco. O que interessa é a mudança em relação ao padrão daquele animal.
Na saúde do úbere, essa capacidade de comparação também pode fazer diferença. Alterações na condutividade do leite, acompanhadas ao longo das ordenhas, podem funcionar como um sinal para que determinada vaca seja observada com mais atenção. Não se trata de substituir avaliação clínica ou diagnóstico, mas de direcionar o olhar do produtor para quem realmente merece atenção.
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Antecipar essa avaliação pode representar menos impacto produtivo, menor necessidade de intervenções e, em determinadas situações, evitar que um problema avance até exigir tratamentos que impliquem descarte de leite e custos com medicamentos.
Outro ponto importante trazido pela gestão por dados é a possibilidade de rever conceitos que durante anos foram utilizados quase automaticamente dentro das fazendas.
Produção individual, por exemplo, continua sendo um indicador fundamental, mas não necessariamente conta toda a história. Imagine duas vacas: uma produz 10 quilos de leite em três minutos de ordenha; outra entrega 15 quilos em seis minutos. Qual delas é mais eficiente para aquele sistema?
A resposta depende do que está sendo analisado. Produção, tempo de ocupação do equipamento, fluxo de leite, desempenho ao longo da lactação e performance de saúde e reprodução daquele animal precisam ser considerados em conjunto. Uma vaca de maior produção não será necessariamente a mais eficiente quando todos os fatores envolvidos são colocados na conta.
O tempo que o animal permanece no equipamento também pode revelar situações que passariam despercebidas em uma análise exclusivamente produtiva. Quando uma vaca começa a levar mais tempo do que o habitual durante a ordenha, pode haver desde uma redução no fluxo de leite até dificuldades de conexão, desconforto ou alterações de locomoção.
Até mesmo eventos aparentemente operacionais, como visitas ao sistema que não resultam em ordenha ou ordenhas que não são concluídas normalmente, ajudam a formar esse diagnóstico. Quando deixam de ser casos isolados e passam a apresentar determinado padrão, eles podem sinalizar dificuldades de adaptação, manejo inadequado, competição entre animais ou problemas no ambiente.
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O resultado é uma mudança na própria lógica da gestão. Em vez de procurar explicações somente depois que a produção caiu, a doença apareceu ou determinado comportamento se tornou evidente, o produtor passa a trabalhar também com sinais anteriores ao problema.
Isso não significa que algoritmos, sensores ou robôs substituam conhecimento, experiência ou presença no campo. Pelo contrário. Quanto maior a quantidade de informações disponíveis, mais importante se torna saber interpretá-las.
O produtor continua sendo quem conhece o rebanho, entende o contexto da propriedade e toma as decisões. A tecnologia amplia esse olhar ao permitir que centenas de animais sejam acompanhados individualmente, 24 horas por dia, em uma escala que seria praticamente impossível reproduzir apenas pela observação humana.
É por isso que a digitalização da pecuária não pode ser medida pela quantidade de dados coletados, mas pela qualidade das decisões que eles ajudam a tomar.
A conhecida máxima de que "o que não é medido não é gerenciado" continua válida. Mas, em uma fazenda cada vez mais conectada, ela pode ganhar um complemento: medir é apenas o começo. O verdadeiro valor está em saber o que fazer com a informação.
*João Lucas Moisés é engenheiro de Controle e Automação e gerente de Suporte de Serviço da Lely Latam
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