Agronegócio

O cachorro que virou peão: Border Collie ganha espaço na lida com o gado

Autor: Por Marcelo Beledeli — Porto Alegre Publicado em: Fonte: Globo Rural
O cachorro que virou peão: Border Collie ganha espaço na lida com o gado
Foto: Luís André/Secom-RS

Pecuaristas brasileiros têm empregado cada vez mais uma "classe de trabalhadores" extremamente eficientes e que tem ajudado a reduzir custos e aumentado o bem-estar de rebanhos. Eles são os cães de pastoreio, especialmente da raça Border Collie, que teve um crescimento acelerado nos últimos anos em propriedades de criação de bovinos e ovinos.

De acordo com Heder Melo, presidente da Associação Brasil Border Collie (ABBC), entidade que faz o registro dos cães usados para trabalho com rebanhos, o avanço da raça é notável ao longo dos anos.

Em 2016, registramos só 400 cães. Em 2026, devemos alcançar 10 mil animais de trabalho registrados
, afirma.

Somando os cachorros que ainda não estão registrados, Melo estima que existam cerca de 40 mil animais atuando em propriedades brasileiras. Apesar do número elevado, a quantidade ainda é pequena para um país que tem mais de 5 milhões de fazendas de criação de gado bovino, avalia o dirigente.

Na prática do dia a dia, a capacidade de trabalho da raça impressiona. Dependendo do treinamento e da estrutura da fazenda, um único Border Collie treinado consegue conduzir e manejar com facilidade lotes de 200 a 300 cabeças de gado bovino por vez em campo aberto, cobrindo áreas extensas que exigiriam peões a cavalo (veja exemplo no vídeo abaixo).

A presença do cão facilita a rotina e a gestão financeira das propriedades pois otimiza a mão de obra. Segundo Melo, um único funcionário acompanhado por cães treinados consegue realizar tarefas de recolhimento de gado que antes exigiam até três pessoas.

Aquele trabalho que antes levava das 7h30 até às 17h, pode ser encerrado na hora do almoço
, ressalta.

Além da economia de tempo no campo, o animal garante agilidade nos manejos de curral durante vacinações ou protocolos de inseminação. Essa atuação reduz o estresse do rebanho, diminuindo acidentes e lesões.

O Border Collie não é uma ferramenta de trabalho, é uma tecnologia que está no corpo de um cachorro
, defende o presidente da ABBC.

O custo para integrar os caninos à propriedade varia conforme a maturidade e o nível de adestramento do animal. A aquisição de um filhote proveniente de linhagem de trabalho exige um investimento inicial entre R$ 3.000 e R$ 6.000, valor que no patamar mais alto costuma incluir a capacitação para o adestramento. Já a compra de um cão adulto treinado, com idade entre 2,5 e 4 anos, parte de R$ 15.000.

Rodrigo Belebon (em pé) realiza oficina do Senar sobre uso do cão Border Collie em rebanho ovino

Luís André/Secom-RS

Em Ibirubá (RS), o produtor Rodrigo Belebon, investe desde 2010 na ovinocultura. Atualmente, tem um rebanho de 50 matrizes, para criação de cordeiros e produção de animais para outras propriedades. Em 2019, começou a usar o cão Border Collie para o manejo das ovelhas.

O objetivo da adoção do cão de pastoreio era realizar um manejo do rebanho com bem-estar animal.

Os ovinos se estressam menos com os cães do que com humanos, e assim também perdem menos peso. Além disso, na nossa região há uma falta de mão de obra capacitada para esse trabalho, que o cachorro consegue suprir em parte
, comenta Belebon, que hoje tem três cães da raça para ajudar nos trabalhos: Maragato, Maragata e Bugra.

Os resultados agradaram tanto que Belebon se tornou um "embaixador" da raça. Após uma capacitação, passou a ser treinador de cães de pastoreio, e ministra oficinas do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) sobre o uso do Border Collie, a fim de incentivar a criação do animal por pecuaristas.

Em Ijuí (RS), rebanho do criador Lenon Roberto Kuchak Goi já se acostumou com a presença do cão Beam

Arquivo pessoal/Lenon Goi

Cão transforma a lida em fazenda

Um dos criadores de gado bovino que passou a adotar o Border Collie no manejo dos animais após realizar um curso do Senar é Lenon Roberto Kuchak Goi, de Ijuí (RS), que tem propriedade focada em recria das raças bovinas Angus e Brangus. Há cerca de um ano, ele introduziu um "novo funcionário" para fazer o manejo dos animais: o cão "Beam", que tem cerca de dois anos.

Embora Beam tenha chegado à propriedade com apenas noções básicas de pastoreio em ovinos, o período de adaptação com os bovinos foi rápido. Segundo Lenon, a presença do cão transformou a lida diária.

Hoje, eu não me vejo mais criando gado sem o cachorro
, afirma

Para o criador, as vantagens do Border Collie vão desde a otimização de custos até a melhoria no bem-estar animal. Por trabalhar de forma técnica e sem agressividade, o cão reduz drasticamente o estresse do rebanho, o que previne perdas de peso causadas pelo nervosismo do gado.

Além da tranquilidade no campo, Lenon destaca a autonomia que ganhou no trabalho.

Hoje, temos sempre umas 60 cabeças na propriedade. E consigo fazer o manejo apenas com o cachorro, não há necessidade de outras pessoas para ajudar
, diz.

Segundo Lenon, a economia com mão de obra e o baixo custo de manutenção do animal compensam o investimento. Com o tempo de convivência, até a movimentação do gado se tornou mais rápida, já que o rebanho se acostumou com a presença do Border Collie e se reúne voluntariamente assim que o cão se aproxima.

Entusiasmado com os resultados, Lenon já está adquirindo um novo filhote para garantir a continuidade dessa parceria no campo.

É um vício. Depois que a gente tem o primeiro, a gente nunca mais vive sem
, afirma o criador.

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