O que dizem as lideranças do agro sobre a reeleição de Lula
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi avaliada por representantes da agricultura familiar como a garantia da continuidade de políticas públicas voltadas a esse público, retomadas nesta gestão após paralisação nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro (PL), e da representatividade do segmento na Esplanada, com a manutenção do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Sob anonimato, lideranças do agronegócio, setor que apoiou em peso Flávio Bolsonaro (PL) no pleito, demonstraram frustração. Eles reforçaram críticas à política fiscal do petista e alertaram para riscos para a economia diante da continuidade de uma "gastança" pública. O cenário, defendem, influencia a manutenção das taxas de juros em alta e impacta nos negócios do campo.
Pequenos, médios e grandes produtores concordaram, no entanto, que o presidente Lula terá desafios imediatos e de longo prazo para vencer. Um dos temas urgentes é o custo de insumos da safra, como o óleo diesel, caso não haja prorrogação dos subsídios. O setor também quer uma solução para a situação de endividamento rural.
Vânia Marques, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Contag) afirmou que a reeleição significa a manutenção de políticas que poderiam ser descontinuadas caso Flávio Bolsonaro (PL) fosse eleito.
O governo Lula entendeu a importância da agricultura familiar, colocando o setor como prioridade dentro das ações construídas. A continuidade de Lula é continuidade dessas políticas, dos investimentos, dos espaços que haviam sido extintos, disse à reportagem. Entre essas ações estão a retomada do Plano Safra da Agricultura Familiar, a formação de estoques públicos de alimentos, o programa Mais Alimentos e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Para os próximos quatro anos, a dirigente aponta a necessidade de ampliação do orçamento federal para a agricultura familiar e da consolidação das ações de assistência técnica e extensão rural. Uma das metas da ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, é aprovar uma lei para criar um sistema único para essas políticas, o Suater.
Esse tema avançou nesse governo, mas poderia ter avançado mais. Esperamos que seja concretizado o Suater, somente assim vamos conseguir associar o crédito rural à assistência técnica, porque isso contribui para que os agricultores familiares não caiam no endividamento, refletiu.
Marques disse ainda que é necessário não perder de vista o impacto do clima no setor e incentivar ações para a produção resiliente às mudanças climáticas.
A agricultura familiar pode ser solução. Teremos um instrumento forte para enfrentar as mudanças climáticas e fazer com que o Brasil continue produzindo alimentos para o abastecimento interno e as exportações, concluiu.
A dirigente, que vota na Bahia, lamentou a dificuldade de locomoção por transporte público dos eleitores, o que classificou como "tentativa de golpe". Ela disse que presenciou pessoas que não conseguiram chegar à zona eleitoral neste domingo por falta de transporte.
Já havia visto a abstenção na área rural, assentamentos e quilombos, por falta de transporte, mas não imaginava ver em grandes centros, indicou. Com a composição do Congresso Nacional majoritariamente à direita, ela ressaltou a necessidade de "manter a classe trabalhadora" mobilizada contra possíveis "ataques a direitos" de parlamentares a partir do próximo ano.
No Sul do país, a preocupação é com a retomada da capacidade produtiva após anos de intempéries climáticas e endividamento. Eugênio Zanetti, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), disse que o governo Lula deve "refletir onde errou e corrigir o rumo", pois tem "muitas coisas a melhorar".
Segundo ele, as dívidas rurais ainda são um ponto a ser resolvido e que o setor agropecuário precisa de um "olhar diferenciado" no próximo mandato.
Precisamos reduzir taxas de juros, ter seguro agrícola, Proagro [Programa de Garantia da Atividade Agropecuária] que funcione. Temos menos de 10% da agricultura com algum tipo de seguro, é inaceitável para um país que depende tanto da agricultura, criticou.
Zanetti comemorou ainda a manutenção do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). A intenção de Flávio Bolsonaro (PL) era incorporar a Pasta ao Ministério da Agricultura. O dirigente lembrou ainda que a reeleição de Lula significa "alívio" ante ameaças de mudanças nas regras da aposentadoria rural.
Em nota, o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Plöger, ressaltou a necessidade de o novo governo de Lula
atuar na pacificação do país, construir pontes entre diferentes setores da sociedade e promover o diálogo necessário à formação de consensos acerca das prioridades nacionais.
Ele destacou ainda que o desempenho da agroindústria depende de um planejamento de longo prazo, políticas integradas a uma estratégia plurianual e previsibilidade para investimentos em infraestrutura, logística, financiamento e seguros.
Consultadas, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) não comentaram.
A CropLife, que representa a indústria de insumos no Brasil, cumprimentou Lula pela reeleição e defendeu uma agenda voltada à inovação, à atração de investimentos e ao fortalecimento da competitividade da agricultura brasileira.
Em nota, a entidade afirmou que pretende contribuir com o novo governo na construção de políticas para o desenvolvimento do agronegócio. A associação destacou a importância da segurança jurídica, de um ambiente de negócios favorável à atração de capital e da modernização da infraestrutura produtiva para impulsionar a produtividade agrícola.
Também defendeu o fortalecimento da capacidade de investimento dos produtores rurais e a ampliação do acesso a tecnologias.