O que faz um café valer R$ 134 mil a saca? Conheça os segredos do recorde
O café geisha natural produzido por Luiz Paulo Dias Pereira Filho, em Carmo de Minas (MG), alcançou US$ 26.456 por saca de 60 kg, o equivalente a R$ 134.581,67, no Leilão Beneficente Lendas da Excelência, promovido pela Alliance for Coffee Excellence (ACE) na semana passada. Arrematado pela empresa japonesa Snow Beans Coffee, o lote entrou para a história como o mais caro de um produtor brasileiro nos leilões organizados pela entidade.
Mas o resultado não veio de uma hora para outra. Pereira Filho trabalha com café desde 2000 e integra a quarta geração da família à frente da Fazenda Santuário Sul, onde o lote recordista foi cultivado.
Ao lado dos dois irmãos, do pai e do tio, ele construiu uma trajetória ligada à produção de variedades raras e à busca por qualidade. Esse trabalho também rendeu um dos primeiros títulos de Legends of Excellence (Lendas da Excelência, em tradução livre), concedido pela ACE a produtores de destaque mundial por sua qualidade e inovação.
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Luiz Paulo durante reconhecimento na Alliance for Coffee Excellence (ACE)
Arquivo pessoal
Desde sempre a minha vida foi o café. E receber esse reconhecimento da Alliance for Coffee Excellence foi o que me levou ao leilão beneficente e a conquistar esse recorde, contou
Ao longo dos anos, o produtor também buscou entender melhor as particularidades do café brasileiro e como elas poderiam se destacar no mercado internacional. Em 2012, criou o projeto New Flavors (Novos Sabores, em tradução livre), voltado à pesquisa das características e dos limites do produto nacional.
A iniciativa partiu de uma percepção sobre as diferenças entre os mercados.
Percebi que o café do Brasil e o de um país europeu, por exemplo, podem ter a mesma matéria-prima, mas atender a finalidades diferentes. Por isso, não podíamos compará-los diretamente, já que cada um tem uma proposta. Era necessário olhar apenas para o café brasileiro e entender suas particularidades, explicou
A aposta em variedades como o geisha faz parte dessa busca por diferenciação. Originária da Etiópia, a variedade exige cultivo em grandes altitudes, mão de obra qualificada e colheita seletiva. Essas condições também limitam o volume produzido.
Luiz Paulo e família
Arquivo pessoal
Segundo Pereira Filho, um bom geisha apresenta notas de jasmim, características florais e papaia.
Se nós quiséssemos quantidade, não ficávamos no geisha, isso porque ele é voltado à qualidade e não quantidade, afirmou.
O trabalho necessário para produzir cafés especiais também ajuda a explicar a valorização desses produtos no mercado internacional. Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), explica que o processo envolve cuidados específicos na pós-colheita, com técnicas que variam de acordo com o perfil desejado para a bebida.
Você tem várias formas de pós-colheita, como fermentação via úmida, via seca, terreiro suspenso, a questão do terreiro arborizado, por causa dos extremos de temperatura, por exemplo, explicou.
Colheita em Carmo de Minas (MG)
Arquivo pessoal
Marcos também ressalta que a produção de cafés especiais não se limita a variedades raras ou a lotes de alto valor. Segundo ele, uma mesma propriedade pode produzir cafés de diferentes qualidades, dependendo das condições de colheita e do tempo disponível para o trabalho. Por isso, defende a valorização de todos os perfis de café brasileiro, dos tradicionais aos especiais.
A diferenciação também aparece nos números das exportações. Segundo Marcos, no ano passado, o Brasil exportou 40 milhões de sacas de café, das quais 8,15 milhões correspondiam a cafés diferenciados. A categoria reúne produtos de qualidade superior ou que contam com certificações e normas de sustentabilidade e boas práticas. Essas vendas somaram US$ 3,5 bilhões.
Para o diretor, a procura por esses produtos está ligada também à diversidade da cafeicultura brasileira. O país tem 39 regiões produtoras, com diferentes condições climáticas, ambientes de cultivo e sistemas de produção, que resultam em uma ampla variedade de perfis sensoriais. Essa diversidade, segundo ele, contribuiu para que o Brasil exportasse café para 147 países nos últimos cinco anos.
O recorde alcançado por Pereira Filho também representa, na avaliação do diretor, um reconhecimento do café brasileiro. O lote superou a marca nacional anterior, registrada em 2018, quando um café recebeu um lance de US$ 143 por libra-peso.
Bater esse preço não foi um marco somente para mim, mas também para o café brasileiro em si, completou Pereira Filho.