O que Lula e Flávio Bolsonaro propõem para relações comerciais, pesquisa e endividamento rural
No exterior, tensões geopolíticas ajudam a alterar preços de commodities e colocam incerteza nas cadeias globais do agronegócio. No Brasil, produtores veem seu potencial limitado para aproveitar as oportunidades do mercado, com dificuldades de acesso a crédito e aumento dos custos de produção. Saiba o que propõem os candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva para temas como abertura de mercado e dívidas do agro.
Em meio a tensões comerciais com países importadores e a imposição de barreiras tarifárias e sanitárias a produtos do agronegócio brasileiro, os dois prometem ampliação de mercados proteção ao setor agropecuário.
Lula afirma, no programa apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pretende ampliar a diversificação de destinos para "proteger" o país e os produtores de "incertezas geopolíticas". Diz que a diplomacia comercial será fortalecida e que haverá promoção da imagem do agronegócio no mundo, com reforço na atuação dos adidos agrícolas em mercados estratégicos e ampliação de missões comerciais.
Flávio Bolsonaro diz que vai
buscar soluções diplomáticas eficazes contra sanções dos Estados Unidos, da China e da Europa aos produtos nacionais. O documento do candidato do PL promete que, em eventual eleição, a diplomacia será guiada pelo "profissionalismo e pragmatismo, não pela ideologia".
Segundo o texto, o Brasil
voltará a privilegiar os parceiros interessados no ganho mútuo do comércio, sem escolher amigos por afinidade ideológica. A China é mencionada duas vezes no documento de 76 páginas e os Estados Unidos, seis.
Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais (...) Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo, diz o texto.
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O programa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que os pecuaristas brasileiros terão apoio para implantar sistemas de rastreabilidade individual do rebanho, do nascimento ao abate, "para atender às exigências dos mercados internacionais". O tema está no centro do impasse das exportações de carnes e outros produtos animais para a UE.
Sem conseguir comprovar o controle do não uso de antimicrobianos ao longo do ciclo completo da vida do rebanho bovino, o Brasil foi retirado da lista de países aptos a exportar proteínas animais e derivados para o bloco desde 3 de setembro. A medida vale também para carne de aves, ovos, mel e pescados.
O programa de governo de Lula fala ainda que um dos desafios que precisarão ser enfrentados é a adição de valor à pauta exportadora para diminuir "de forma relativa a primarização das relações comerciais brasileiras".
Não há mais detalhes sobre medidas que Flávio Bolsonaro pretende implementar para o mercado internacional ou para temas de rastreabilidade da produção no seu governo. O termo "pecuária" sequer é mencionado no documento.
O programa de governo de Lula para um quarto mandato indica investimentos na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para "consolidar a liderança do Brasil em tecnologia agropecuária tropical" e fomento à expansão da conectividade no mundo rural.
Flávio Bolsonaro não cita a Embrapa, mas aborda incentivos à pesquisa em um capítulo sobre tecnologia e inovação, com atenção especial para inteligência artificial.
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A situação de endividamento no campo, tema não solucionado por Lula com duas medidas provisórias em 2025 e 2026, tem sido citada por interlocutores a Flávio Bolsonaro. A expectativa é que o modelo de ampla renegociação, previsto no projeto de lei 5.122/2023, que foi engavetado no Senado, possa ser implementado em caso de vitória do candidato do PL.
Na proposta original de governo, Flávio Bolsonaro promete ampliar a capacidade de armazenagem de grãos e fala em
buscar soluções diplomáticas eficazes contra sanções dos Estados Unidos, da China e da Europa aos produtos nacionais. Flávio também faz acenos ao setor de fertilizantes e diz que vai apoiar a produção nacional.
Nesta semana, Flávio fez compromissos para receber o apoio de Augusto Cury (Avante), que ficou em terceiro lugar no primeiro turno. O candidato se comprometeu a implementar um plano ambicioso de fazer uma "revolução da agricultura e da produção de alimentos".
A proposta, criada pelo escritor derrotado, prevê dobrar a produção de alimentos e investimento em ciência, tecnologia, irrigação sustentável, crédito rural acessível, infraestrutura, bioinsumos, cooperativismo e agregação de valor à produção. Também houve acordo para fortalecer o cooperativismo.
Já o programa de Lula traz uma mudança de tom em relação ao agronegócio na comparação com abordagens usadas em eleições anteriores. O presidente passou a tratar o setor como
fundamental para o desempenho da nossa balança comercial e para a evolução do PIB nacional.
Até agora, porém, a medida não surtiu efeito. As regiões onde o agronegócio é dominante votaram majoritariamente em Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Ministros de Lula da área agrícola não foram reeleitos para cargos no Congresso Nacional.
O texto do Partido dos Trabalhadores entregue ao TSE cita ainda a necessidade de políticas que integrem eficiência produtiva à sustentabilidade ambiental e à inovação tecnológica para o desenvolvimento do campo. Em tempos de tensões comerciais mundo afora, há acenos para a valorização da pauta exportadora dos produtores e agroindústrias nacionais.