Organismo vivo: fazenda de café usa sistema que integra solo, plantas, animais e pessoas
No coração do Cerrado Mineiro, Pedro Höfig trabalha para manter a tradição iniciada nos anos 1960 pelo seu bisavô, então produtor rural no Paraná. As rotas traçadas pela família levaram seu avô Arthur Höfig Júnior a Unaí (MG). Era o final da década de 1990, e ele se tornara um dos pioneiros da cafeicultura na região.
Fazenda Ouro Verde - 2º Lugar no Fazenda Sustentável - Pequenas Propriedades
Em 2011, com o falecimento do avô, a administração das terras ficou a cargo do pai e do tio de Pedro, até que, em 2014, foi feita uma divisão da área, agora sob cuidado dos netos. Pedro administra a Fazenda Ouro Verde, onde 640 hectares são dedicados à atividade principal, o café. Outros 620 hectares são cultivados com grãos, 400 são dedicados à pecuária e 800 hectares são preservados.
Geógrafo e doutor em ciências ambientais, Pedro aplica muito do seu conhecimento acadêmico no dia a dia da fazenda. Em 2018, depois de enfrentar três anos de dificuldades na produção, decidiu abandonar o manejo convencional. Uma pesquisa sobre pó de rocha e compostagem tornou-se o eixo da mudança.
O primeiro grande marco foi substituir o cloreto de potássio por rochas moídas e incorporar cama de frango ao sistema, detalha.
Por ano, em torno de 16.000 sacas de café são produzidas na Ouro Verde, propriedade administrada por Pedro Höfig, com o apoio da esposa, Julia, e do filho, Lucas
Ruy Baron
A filosofia que orienta o processo parte de um princípio simples e, ao mesmo tempo, profundo: a propriedade é um organismo vivo.
Solo, plantas, animais e seres humanos interagem como partes de um mesmo corpo, e cada setor alimenta o outro. Nada é resíduo, tudo é insumo, diz.
Na Ouro Verde, a compostagem está integrada a diferentes etapas: esterco dos bovinos, casca de café, silagem, grãos e rochas moídas.
Aceleramos a decomposição natural e criamos um adubo rico em vida microbiana, fortalecendo a autonomia da propriedade, completa o produtor.
Lucas Guimarães Höfig, entre os pais, Pedro e Julia: foi ele quem sugeriu ao pai que se increvesse no Prêmio Fazenda Sustentável
Ruy Baron
A adição de rochas moídas simula o rejuvenescimento geológico do solo, semelhante ao que ocorre em erupções vulcânicas ou movimentos glaciares. A sinergia entre composto e pó de rocha é o ponto alto da estratégia: o composto libera nutrientes das rochas, e as rochas intensificam a atividade biológica da compostagem.
O resultado é um solo mais estruturado, fértil e resiliente, base para plantas equilibradas e cafés mais complexos, ressalta.
Nos últimos anos, outras práticas também foram incorporadas, como o uso de inseticidas naturais e a aplicação controlada de herbicidas e fungicidas químicos, em situações específicas (principalmente nas variedades mais suscetíveis à ferrugem). Para o fornecimento de nitrogênio, Pedro usa ureia complexada, com o objetivo de aumentar a eficiência e reduzir a quantidade utilizada.
Café é cultivado em 640 hectares na Ouro Verde. Manejo passou por transformação em 2018, depois de três anos de problemas na produção
Ruy Baron
Na parcela de área destinada à pecuária, são criadas em torno de 1.000 cabeças de gado nelore, em sistema de integração lavoura-pecuária (ILP). Em dois anos, a soja é cultivada na safra principal. Na safrinha, são plantados sorgo, capim e/ou plantas de cobertura. Em outros dois anos, o milho é cultivado na safra principal e, na safrinha, os animais pastoreiam na área.
Com a integração, conseguimos diluir custos, diversificar as fontes de renda e promover melhoria da estrutura e da cobertura do solo, destaca Pedro.
A Ouro Verde produz anualmente uma média de 16.000 sacas de café arábica destinadas majoritariamente à exportação. Uma parcela da área cultivada, de 17 hectares, é dedicada à agrofloresta.
O manejo é mais trabalhoso e a produtividade, menor, mas o retorno vem em forma de qualidade sensorial, frisa o produtor.
Esses cafés, especificamente, são torrados e vendidos em feiras de Brasília (distante 165 quilômetros de Unaí), negócio que tem a intenção de aproximar o consumidor da história e da filosofia da fazenda.
Globo Rural
Desde 2020, a propriedade é acompanhada pelo Instituto Brasileiro de Agricultura Sustentável (IBA), que mede anualmente parâmetros químicos, físicos e biológicos do solo. A fazenda ainda tem certificações como Rainforest e Regenagri, que reforçam o compromisso com práticas conservacionistas e rastreáveis.
O aspecto social da sustentabilidade está presente em políticas voltadas à valorização dos 50 colaboradores, que recebem capacitação contínua por meio de parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). A fazenda ainda mantém um canal de comunicação por meio de QR code, que permite aos funcionários interlocução direta com o setor de recursos humanos. O objetivo é ampliar a transparência, a segurança e o respeito no ambiente de trabalho.
Fazenda Ouro Verde - Unaí (MG)
Em toda essa jornada, Pedro conta com o apoio e as contribuições da família. O filho Lucas Guimarães Höfig, de 14 anos, foi quem sugeriu ao pai que se inscrevesse no Prêmio Fazenda Sustentável.
Ele sempre está atento às atividades que podemos implementar em prol do meio ambiente.
A esposa, Julia Archangelo Guimarães Höfig, é psicóloga e atua em iniciativas sociais junto aos profissionais da propriedade. No ano passado, ela integrou a equipe que realizou o projeto "Brincando a gente se entende", promovido pela Fundação AH, instituição sem fins lucrativos, gerida pela família. A ação foi destinada aos colaboradores que residem e prestam serviço na Ouro Verde e teve como foco promover diálogo, acolhimento e orientação sobre diferentes temas sociais.