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Peixe também fica estressado? Conheça sinais de bem-estar em tilápias

Autor: Por Mariana Letizio — São Paulo Publicado em: Fonte: Globo Rural
Peixe também fica estressado? Conheça sinais de bem-estar em tilápias
Foto: Divulgação C

Para quem acompanha um animal, sobretudo aquático, identificar sinais de estresse, ansiedade ou até de agressividade pode ser uma tarefa mais difícil do que reconhecer essas reações em um cachorro ou gato, que possuem uma proximidade maior com o ser humano, por exemplo.

De acordo com Caroline Maia, especialista em peixes na Alianima, organização de proteção animal sem fins lucrativos, a água cria uma barreira entre o criador e o animal.

Ainda assim, mudanças no comportamento e no próprio ambiente podem indicar um sinal de alerta.

Existe uma superfície de um universo diferente do nosso separando a gente deles. Apesar disso, observar sangue na água ou perda de escamas, por exemplo, já são sinais de atenção
, aponta.

Para ajudar na identificação, a terceira edição do Observatório do Peixe, da Alianima, reuniu evidências científicas sobre o bem-estar desses animais, com foco nas tilápias. O levantamento considera fatores como alimentação, qualidade da água, densidade de estocagem, estrutura do ambiente, manejo, transporte e abate, que podem interferir tanto nas condições dos animais quanto nos resultados da produção.

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E a escolha da tilápia não foi por acaso. Em dez anos, a produção da espécie no Brasil cresceu 148,2%, passando de cerca de 285 mil toneladas em 2015 para aproximadamente 707,5 mil toneladas em 2025. Hoje, a tilápia representa 70% dos peixes produzidos no país, segundo o instituto.

De acordo com Caroline Maia, a literatura científica já apresenta evidências de que condições capazes de reduzir o estresse e melhorar o ambiente de produção estão associadas a indicadores produtivos favoráveis. Ao mesmo tempo, ainda existem lacunas, principalmente quando se tenta medir o impacto econômico dessas práticas.

Quando a gente trata de peixes, estamos falando de muitas e muitas espécies diferentes. Então, quando puxamos para uma espécie específica, já não temos tanto material assim e detectamos, inclusive, algumas lacunas na literatura
, explica

Cada detalhe é um sinal

Além da presença de sangue ou da perda de escamas, Maia chama atenção para a hora da alimentação. O esperado é que os peixes consumam a ração fornecida em cerca de três a cinco minutos. Sobras depois desse período ou um consumo muito mais rápido do que o habitual podem indicar alguma alteração.

O comportamento dos animais também merece atenção. O criador pode observar se todos estão se alimentando, se algum permanece na superfície, se há mudanças na forma de nadar ou se os peixes passaram a utilizar o tanque ou viveiro de maneira diferente do habitual.

Existem padrões comportamentais aos quais os produtores já estão acostumados a observar. Se tiver alguma coisa que diverge disso, que está diferente do padrão, provavelmente é porque alguma coisa não está bem
, afirma

A concentração dos animais em um ponto específico no fundo do tanque, por exemplo, também pode indicar algum problema. A alteração pode atingir um grupo, um indivíduo ou todos os peixes.

O papel do bem-estar para um mercado em alta

O levantamento também encontrou relações entre as condições de bem-estar e características que interessam diretamente à produção. Um dos exemplos aparece nas etapas que antecedem o abate.

Permitir que os animais descansem após o transporte e antes do abate, além de utilizar métodos menos estressantes e uma insensibilização adequada, pode contribuir para preservar a textura do pescado e aumentar a retenção de água. Essas práticas também podem reduzir a chance de um filé mais duro, segundo a pesquisadora.

Tudo isso é bom não só para os peixes, mas também para os produtores
, complementa

O que ainda precisa ser descoberto

Um dos pontos que permanecem em aberto é justamente quanto essas melhorias representam em retorno financeiro. Segundo Maia, a literatura científica ainda não apresenta estudos econômicos amplos capazes de estabelecer uma relação direta entre uma determinada prática e um ganho específico para o produtor.

Apesar disso, ela diz que isso não elimina as associações já observadas entre as condições de criação e os resultados produtivos. O enriquecimento ambiental, por exemplo, aparece entre as práticas que apresentam resultados promissores.

O desafio do bem-estar

Os desafios aparecem desde a reprodução, passando pelos ovos, larvas e alevinos, até o abate, ou seja, ao longo de toda a cadeia produtiva. A Alianima ainda busca ampliar o acesso a dados de propriedades para acompanhar, na prática, os efeitos das melhorias.

Apesar disso, a entidade encontra dificuldade para obter informações de produtores dispostos a abrir dados sobre suas operações, em parte pelo receio de possíveis denúncias.

Nosso objetivo não é esse. Nossa meta é estabelecer parcerias para estudo e aproveitar esse momento de crescimento exponencial da tilápia

A discussão ganha espaço justamente enquanto a espécie amplia sua participação na produção e nas exportações brasileiras. Em 2025, a tilápia respondeu por cerca de 92% do volume exportado pela piscicultura nacional. Para Maia, o avanço da atividade também aumenta a importância de questões como sustentabilidade, rastreabilidade, competitividade e transparência.

Nós estamos cada vez mais internacionalizados e globalizados, e daí vêm outras pressões. Existe a concorrência com tilápias importadas, temos a questão das tarifas do exterior e um setor cada vez mais preocupado com sustentabilidade e rastreabilidade
, concluiu, apontando para a importância dos estudos no setor.