Agronegócio

Pesquisa busca adaptar pinus às mudanças climáticas e aumentar a produtividade

Autor: Por Carolina Mainardes — Ponta Grossa (PR) Publicado em: Fonte: Globo Rural
Pesquisa busca adaptar pinus às mudanças climáticas e aumentar a produtividade
Foto: Divulgação

Com 1,9 milhão de hectares cultivados no país, sobretudo na região Sul, o pinus tem recebido atenção de pesquisadores focados em avaliar os impactos das mudanças climáticas no setor de florestas plantadas e em formas de mitigar os riscos que isso representa. Matéria-prima de papel e celulose, painéis de madeira, móveis, embalagens e biomassa energética, a espécie de origem norte-americana chegou no Brasil há 120 anos e tem obtido aqui produtividades maiores do que na região de origem. A meta, agora, é aliar o potencial de produção à resistência aos efeitos das transformações do clima.

Até a década de 1970, a árvore tinha uma produção média de 18 metros cúbicos por hectare ao ano no Brasil. Após anos de melhoramento genético, adaptação e manejo, a média de produtividade chegou aos atuais 31,1 m³/hectare ao ano, podendo alcançar 40 m³/hectare. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o rendimento médio gira em torno de 20 m³/ha ao ano, devido, principalmente, às condições climáticas.

No Brasil, as espécies Pinus taeda e Pinus elliottii lideram os ganhos de produtividade e qualidade, sobretudo na região Sul, onde clima e solo favoreceram a cultura.

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O desafio é aumentar ainda mais a produtividade do pinus e ter materiais adaptados a mudanças climáticas, a fim de manter uma base genética ampla para ser usada no futuro
, afirma Ananda Aguiar, pesquisadora de melhoramento genético da Embrapa Florestas, em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba (PR).

Pesquisas para elevar a produtividade da espécie são feitas desde a década de 1970 na estatal e envolvem parcerias com empresas privadas de papel e celulose, instituições de pesquisa florestal, universidades e cooperativas internacionais.

Mas desde 2021, por meio do Projeto Cooperativo de Melhoramento Genético de Pinus, a Embrapa Florestas também desenvolve pesquisas para identificar materiais genéticos mais adaptados às mudanças climáticas.

Espécie de origem norte-americana chegou no Brasil há 120 anos, vinda dos EUA

Divulgação

As pesquisas são feitas no campo, em áreas plantadas em várias regiões do Brasil, segundo Aguiar. Para avaliar a tolerância do pinus a geadas, temperaturas elevadas ou a períodos de seca, os pesquisadores plantam mudas em locais em que a espécie não tem uma boa adaptação.

A pesquisadora explica que a integração de dados genéticos, climáticos e de solo, tanto das regiões de origem quanto dos locais de plantio, permite

compreender melhor a interação entre genética e ambiente, identificar os fatores que influenciam a adaptação das espécies e orientar a seleção de materiais mais tolerantes aos estresses climáticos
.

Os trabalhos são direcionados a um conjunto de espécies de floresta plantada, que inclui, além do pinus, também o eucalipto. As pesquisas buscam ainda descobrir qual a influência dos extremos climáticos na ocorrência de pragas, como a vespa-da-madeira e as formigas cortadeiras.

De acordo com a pesquisadora, há focos diferentes de ação, tendo em vista as variações de clima nas regiões que concentram as florestas plantadas. Enquanto 89% dos plantios de pinus do país estão na região Sul, o Sudeste lidera a área plantada de eucalipto (43%), seguido pelo Centro-Oeste (22%).

Há muita variação entre as regiões, com chuvas intensas, alterações na temperatura e estiagem, o que favorece a eclosão de novas gerações de insetos
, relata Ananda.

Além disso, os pesquisadores avaliam a contribuição do pinus para o meio ambiente, investigando como a espécie ajuda na mitigação dos gases de efeito estufa.

Os avanços nas pesquisas sobre pinus favorecem produtores que se dedicam à cultura. Álvaro Scheffer Junior, diretor da Águia Florestal, empresa de plantio e industrialização de madeira de Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, conta que a produtividade nas áreas do grupo passou de cerca de 18 m³/ha ao ano, no início das atividades na década de 1970, para mais de 40 m³/ha ao ano hoje. A empresa planta 10 mil hectares numa área de 24 mil. O restante é de floresta nativa preservada.

A produção gira em torno de 100 mil m³ de madeira serrada ao ano, destinados aos mercados interno e externo da construção civil.

Segundo Scheffer Junior, a mudança no regime de chuvas da região, que ficou mais seca, provocou um aumento na produção de sementes pelas árvores e também fez suas raízes atingirem níveis mais profundos:

A planta vai tentando se adaptar e perpetuar a espécie
.

Para ele, que integra o Fundo Cooperativo para Melhoramento de Pinus (Funpinus), o desafio daqui para a frente será buscar materiais que tenham incremento médio anual na floresta sem perder a qualidade estrutural e as características físicas como a aparência da madeira.

Pequenos e médios produtores

O pinus também é considerado uma boa opção de cultura para pequenos e médios produtores. Edilson Oliveira, pesquisador de manejo de florestas da Embrapa, destaca que a produção florestal é indicada para áreas com menor aptidão agrícola, como pastagens degradadas ou solos pobres.

Pode ser um complemento de renda, vindo de uma área que ele não usaria para outra atividade
.

Oliveira também elenca entre as vantagens em relação às lavouras convencionais o baixo uso de defensivos e uma pequena área para começar a plantação, tanto para uso da madeira na propriedade quanto para a produção em escala comercial.

O pesquisador sugere o plantio de 50 árvores por ano para um cultivo inicial.

Pode ir ampliando a cada ano, sem exigência de muita mão de obra e, no futuro, o produtor pode se beneficiar com a colheita em ciclos
, avalia. A idade da árvore para o corte dependerá da finalidade.

O produtor Altair Cochinski, de Lapa, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), planta pinus em 2,42 hectares. Ele fez neste ano o segundo corte das árvores, com um ciclo de 13 anos e a madeira destinada a uma serraria da região.

Cochinski conta que chegou a ter na propriedade atividades como pecuária de leite e de corte, além de lavoura de fumo. No entanto, decidiu substituí-las por opções ligadas à restauração florestal, como o cultivo de erva-mate, de pinus e de eucalipto.

Vale a pena, dá menos serviço, pois é só deixar as espécies crescerem. É uma poupança para os próximos anos
, considera.