Agronegócio

Por que algumas vacas têm um buraco na barriga? Conheça a fístula ruminal

Autor: Por Daniela Walzburiech — Florianópolis Publicado em: Fonte: Globo Rural
Por que algumas vacas têm um buraco na barriga? Conheça a fístula ruminal
Foto: Canva/Creative Commons

Um buraco na lateral do corpo de uma vaca causa estranhamento à primeira vista, mas a abertura tem uma função específica e importante: acompanhar o que acontece no sistema digestivo dos bovinos em pesquisas sobre digestão e aproveitamento dos alimentos.

A fístula ruminal é uma técnica cirúrgica utilizada há décadas, explica a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Gado de Leite). Por meio dela, uma cânula é instalada na parede abdominal para permitir o acesso direto ao rúmen, o maior dos quatro compartimentos do estômago. Os outros são o retículo, o omaso e o abomaso.

Após a recuperação da vaca, é possível realizar coletas e outros procedimentos no órgão com mínima intervenção, evitando ainda a necessidade de cirurgias invasivas e repetidas, como a passagem de uma sonda pelo esôfago.

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A finalidade é estabelecer um acesso de longa duração para acompanhar sistematicamente o ambiente ruminal. Podem ser obtidas amostras, realizar estudos de fermentação e microbiota, avaliar alimentos e aditivos e monitorar alterações do rúmen em diferentes momentos do dia ou em resposta a diferentes tratamentos
, destacam os pesquisadores Mirton José Frota Morenz, João Paulo Pacheco Rodrigues e Bruno Campos de Carvalho.

Abaixo, descubra mais cinco curiosidades sobre a fístula ruminal:

1 - Onde é realizada a técnica cirúrgica?

As cânulas são produzidas com materiais flexíveis e biocompatíveis e implantadas na fossa paralombar esquerda do bovino. A região é escolhida porque o rúmen ocupa grande parte deste lado da cavidade abdominal.

2 - O que é possível fazer após a implantação da cânula?

De acordo com os pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, a cânula permite retirar do rúmen tanto a fração líquida quanto partículas sólidas de alimentos em diferentes estágios de digestão e também introduzir amostras para avaliar como ocorre a degradação durante o processo digestivo.

O trabalho, seja com a retirada ou inclusão de alimentos, contribui nas pesquisas para a elaboração de dietas e o desenvolvimento de sistemas de produção.

3 - A fístula fica aberta?

Não. A cânula instalada durante a cirurgia possui uma tampa que é aberta apenas para a introdução ou a retirada de amostras de alimentos. No restante do tempo, o acesso ao rúmen fica vedado e permite que o animal mantenha as atividades normais.

Tampa é aberta apenas para a introdução ou a retirada de amostras de alimentos

Canva/Creative Commons

4 - Qualquer vaca pode passar pelo procedimento?

Não. Os animais selecionados para a implantação da fístula passam por uma avaliação criteriosa. Eles devem ser saudáveis, ter bom temperamento e apresentar condições de permanecer por um longo período no experimento.

Como eles podem ser utilizados durante vários anos, esses aspectos são particularmente importantes. Depois da completa cicatrização e na ausência de complicações, o animal pode permanecer integrado ao rebanho. A critério do responsável técnico e de acordo com as condições do animal e os protocolos aplicáveis, também pode permanecer em produção e reprodução, como ocorre com as vacas leiteiras
.

5 - Como o uso desses animais é controlado do ponto de vista ético?

A Embrapa Gado de Leite explica que o uso da fístula ruminal em pesquisas é regulamentado no Brasil pela lei nº 11.794/2008, pelas normas do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA) e pela Diretriz Brasileira para o Cuidado e a Utilização de Animais em Atividades de Ensino ou de Pesquisa Científica (DBCA).

Além disso, as instituições envolvidas precisam estar credenciadas e contar com uma Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA). Os procedimentos, desde a implantação da cânula, com anestesia e analgesia, até a recuperação pós-operatória, manutenção, alojamento, manejo e utilização experimental, devem estar previstos em protocolos submetidos à avaliação e autorização da comissão.