Agronegócio

Produtor de soja aproveitou picos de preço para acelerar vendas da safra 2026/27

Autor: Por Paulo Santos — Campina Grande (PB) Publicado em: Fonte: Globo Rural
Produtor de soja aproveitou picos de preço para acelerar vendas da safra 2026/27
Foto: Antônio Neto/Embrapa

Ciente de que a safra 2026/27 é uma das mais desafiadoras dos últimos anos em termos de margem e custos, o produtor de soja buscou aproveitar o bom momento de preços. O grão atingiu a máxima do ano em setembro, e favoreceu as vendas da safra que está sendo plantada.

Temos um volume recorde de soja negociada antecipadamente, com 73,7 milhões de toneladas. O produtor fez sua estratégia para garantir parte do faturamento para abril do ano que vem, e ainda os bons momentos para fazer o barter, já que a relação de troca o favoreceu
, observa Vlamir Brandalizze.

Segundo ele, em termos percentuais, as vendas da safra 2026/27 de soja chegaram a 40% da produção esperada, em linha com a média dos últimos anos. O volume de negociação teve destaque este ano devido a uma alta consistente para os valores da soja no Brasil.

O indicador Cepea/Esalq base porto de Paranaguá (PR) fechou setembro com média de R$ 161,14 a saca, até bater a máxima de R$ 162 naquele mês. No mesmo período do ano passado, o valor era de R$ 138. Neste ano, fatores como a demanda interna e externa pela oleaginosa e ainda as elevações na bolsa de Chicago contribuíram para a precificação no Brasil.

De acordo com Rafael Silveira, analista da Safras & Mercado, o produtor acelerou as vendas do grão desde agosto. Dados da consultoria coletados até o dia 2 de outubro indicam que a comercialização chegou a 32,9%, em comparação com os 23% levantados no mesmo período do ano passado. A continuidade desse ritmo forte vai depender do comportamento das cotações, que podem ser influenciadas por fatores ligados com a oferta e a demanda, segundo ele.

As safras do Brasil e da Argentina ainda são uma incógnita. Também há uma demanda muito aquecida nos EUA, especialmente por compras da China nas últimas três semanas. Isso pode implicar redução dos estoques finais americanos
, afirma Silveira.

Ariel Nunes, analista da Gran Center Commodities, estima que as vendas antecipadas deste novo ciclo alcançaram 35% da produção, mas, em um cenário ideal, deveriam estar mais avançadas.

O ideal seria o produtor ter fechado 50% das vendas antecipadas, pensando em pagar seus custos, uma vez que o preço renovou diversos recordes no ano e está nos maiores patamares em três temporadas. Para os outros 50% o recomendado é segurar mesmo, até pensando no El Niño e em possíveis perdas
, diz Nunes.

Após bater o teto de R$ 162 em Paranaguá, o preço da soja vem em uma decrescente neste mês de outubro. Na sexta-feira (23), o valor ficou na faixa dos R$ 152, o que, segundo Enilson Nogueira, analista da Céleres Consultoria, pode indicar que o melhor momento de preços para as vendas ficou para trás.

A oportunidade com preços melhores que o produtor viu em setembro não está mais na mesa. A não ser que tenha outro fator de clima adverso no Brasil ou Argentina, ou ainda uma demanda mais agressiva da China por soja, não vejo espaço para uma nova alta nas cotações que vá destravar novamente as vendas
.

Pelos cálculos da Céleres, as vendas de soja da safra 2026/27 chegaram a 22% da produção esperada, superior aos 15% da média.

Segundo os analistas ouvidos pela reportagem, o comportamento do câmbio a depender do resultado das eleições presidenciais no Brasil, pode trazer um novo elemento de volatilidade para as negociações da soja no país. Um dia após o primeiro turno, com a vitória do candidato Flávio Bolsonaro (PL), o dólar registrou a maior queda diária (-4,12%), desde junho de 2018, para R$ 5.

Qualquer resultado da eleição pode mudar a dinâmica das negociações desta safra. Uma eventual vitória do Lula pode levar o câmbio a patamares de R$ 5,20 a R$ 5,30 e pode ser um gatilho para novas vendas
, diz Enilson Nogueira, da Céleres.

Na avaliação do consultor Vlamir Brandalizze, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, o dólar pode experimentar um recuo expressivo até chegar a R$ 4,80, o que não necessariamente implica quedas maiores para a soja no Brasil.

Se o dólar cai muito, ele pressiona os prêmios e os futuros em Chicago para cima, o que tende a neutralizar baixas mais acentuadas para a saca no Brasil. Certamente o preço vai cair, mas talvez não mais do que R$ 1 ou R$ 2 num curto período após as eleições
, avalia.