Agronegócio

Quebra de produção e perda de qualidade marcam safra brasileira de trigo em 2026

Autor: Por Luiz Eduardo Minervino — Rio de Janeiro* Publicado em: Fonte: Globo Rural
Quebra de produção e perda de qualidade marcam safra brasileira de trigo em 2026
Foto: Embrapa Trigo

A safra brasileira de trigo deve somar 5,12 milhões de toneladas em 2026, queda de 37% em relação ao ciclo anterior, segundo estimativa apresentada pelo especialista em mercado de trigo Elcio Bento durante o Congresso Internacional da Indústrias do Trigo. Além da redução do volume, a perda de qualidade dos grãos preocupa a cadeia produtiva, especialmente no Rio Grande do Sul, onde o excesso de chuvas prejudicou o desenvolvimento das lavouras e os trabalhos de campo.

Vamos fazer milagre com trigos mais fracos, mas trigos tipo 1 são raridade este ano
, afirmou Bento. O trigo tipo 1 é o utilizado para o preparo de pães e massas frescas. Segundo ele, a quebra começou com calor e seca no Cerrado e avançou pelas regiões produtoras do Sul e do Sudeste. O especialista avalia que a produção nacional deve atender apenas 36% do consumo interno.

No Rio Grande do Sul, a ocorrência de giberela, doença favorecida pela umidade, elevou os níveis de DON, uma micotoxina que pode limitar o uso do cereal pela indústria de alimentos. As chuvas durante a colheita também começaram a comprometer o Falling Number, indicador relacionado à atividade enzimática do grão e importante para a qualidade da farinha.

Índio Brasil dos Santos, sócio da Solo Corretora de Cereais, estima que a produtividade gaúcha possa cair de 2.500 para 2.400 quilos por hectare, o que reduziria a produção estadual em mais 100 mil toneladas. Parte dos grãos com qualidade inferior deve ser destinada à alimentação animal.

O trigo sofreu com toda a sequência de dias chuvosos
, disse, ao descrever as condições climáticas ao longo do ciclo.

Outro fator que contribui para a redução da área de trigo no Estado é o avanço da canola. Segundo dados da Brascanola citados por Santos, a área cultivada cresceu 67% em 2026, passando de 230 mil para 385 mil hectares. O Rio Grande do Sul concentra cerca de 95% da produção brasileira da oleaginosa, cuja expansão é favorecida pelo custo médio de produção, e pelo financiamento por meio de operações de barter, em que o produtor paga os insumos com parte da colheita.

A tendência é de continuidade desse crescimento. A Brascanola projeta que a área de canola no Brasil alcance 1 milhão de hectares até 2030. Segundo Santos, já existem quatro plantas que processam a oleaginosa, e outra linha de esmagamento exclusiva para canola deve ser implantada. A expansão da cultura aumenta a concorrência por área e pode dificultar a recuperação do trigo gaúcho.

Para 2027, o corretor prevê a possibilidade de nova redução da área de trigo no Estado. Uma mudança dependeria de fatores como preços internacionais mais altos ou contratos de exportação que garantam remuneração atrativa.

O desânimo do produtor em relação ao trigo é grande
, afirmou.

*O jornalista viajou a convite da Abitrigo