Rastrear o boi virou tão estratégico quanto criá-lo
A rastreabilidade individual de bovinos, com prazo definido pelo governo federal já para a virada do ano, resolve metade de um problema. Garante que o dado exista, animal por animal, do curral ao abate. A outra metade, que decide se isso irá se tornar um diferencial de mercado para os produtores ou só mais um número dentro de um sistema, é o que a empresa faz com esse dado depois que ele chega.
Vale separar as etapas, porque cada uma exige um ponto diferente da gestão. Dado é o brinco lido de cada animal, a coordenada de GPS, o lote de origem. Isolado, ele não decide nada. A informação nasce quando esse dado é cruzado com outro, como o histórico sanitário, a procedência da propriedade, o padrão de peso e ganho do lote.
Conhecimento aparece quando a empresa entende o padrão por trás da informação, por que aquele lote específico demora mais para ganhar peso, por que um fornecedor concentra mais glosa em auditoria de origem. Decisão é agir sobre esse conhecimento. Trocar fornecedor, ajustar protocolo, priorizar investimento, renegociar prazo.
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A tecnologia que sustenta o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) e as exigências europeias contra o desmatamento resolve só a primeira etapa dessa cadeia. Ela capta o dado com precisão maior do que o sistema por lote que o Brasil usa hoje.
Isso já é avanço na prática. Mas uma empresa pode ter uma identificação individual perfeita, base de dados nacional integrada, e continuar decidindo exatamente como decidia antes, por intuição, com atraso, sob pressão do prazo, porque nunca desenhou o caminho entre o dado bruto e a decisão que ele deveria gerar.
Um exemplo ajuda a facilitar a compreensão. Diante de um problema sanitário, o dado individual sozinho aponta só que um animal específico teve alteração. A informação cruza esse dado com outros animais do mesmo lote e da mesma origem.
Conhecimento identifica se existe padrão regional ou ligado a um fornecedor específico. Decisão é isolar o lote certo, sem descarte desnecessário do resto do rebanho, e ajustar o protocolo com aquele fornecedor específico.
Esse mesmo raciocínio também vale para a comprovação de origem livre de desmatamento: a geolocalização, isolada, não vai solucionar nada até virar um mapa de risco cruzado com histórico da região, e esse mapa só tem valor quando orienta a decisão de aprovar, pedir mais prova ou recusar um fornecedor.
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Para ganhar com rastreabilidade, não é preciso ter a melhor tecnologia de captura de dados. É preciso, antes, dentro da empresa, desenhar o caminho completo entre o dado bruto e a decisão que ele deveria gerar. O prazo regulatório é um bom motivo para montar esse caminho agora.
No livro "O Verdadeiro Poder", o professor Vicente Falconi explica que o principal ponto não é ter dados, mas sim a capacidade de transformá-los em conhecimento que gera resultado. A rastreabilidade é relevante enquanto ferramenta.
O que irá impactar o cenário será quem tratar esse conhecimento como ativo capaz de criar valor efetivo para as organizações. Dado sem decisão é apenas informação parada em uma base. Conhecimento que vira ação é o que sustentará vantagem duradoura de mercado.
*André Paranhos é vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Agronegócio e Indústria de Consumo
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